Rapper paulistano inova
em diversas tecnologias estratégias de markleting e apresenta novas canções em single
inspirado.
Rael da Rima tem
passado a se apresentar apenas como Rael para se livrar de certo
preconceito com o rep. Tudo muito justo porque Rael se apresenta mais
como artista multimídia e multiritmos, porque ele canta rep, reggae,
ragga, charme e funk.
Rael é um artista
completo em todos os sentidos e como se não bastasse todo talento
musical, ele ainda apresenta uma sede de inovar e experimentar. Logo
após apresentar um clipe interativo para uma canção de seu álbum
de 2013, 'Diferenças', ele colocou algumas canções novas em
exposição nos muros da rua – para qualquer um escutar.
O EP 'Diversoficando'
foi colocado num dispositivo portátil que é chumbado na parede,
ficando pra fora apenas a entrada P2 do player – deixando ao
ouvinte a necessidade de apenas trazer o próprio fone de ouvido,
para plug-and-play.
O rapper já instalou o
dispositivo em várias paredes de São Paulo. O primeiro ligar foi na
Rua Maragliano, 421, da Vila Mariana e depois vieram vários outros
picos, como no Centro, Vila Madalena e Santana. Hoje ele já tem
dispositivos instalados também no Rio de Janeiro; no Viaduto de
Madureira, no Circo Voador, entre outros lugares.
Nesse EP, Rael
apresenta 'O Hip Hop é foda' em parceria com Marechal, EMICIDA,
Fernandinho Beat Box e KL Jay. Na sequência ele vem com a charmosa
'Ser feliz', onde ele se apresenta uma crítica ao consumismo com
ares de sambajazz.
Em 'Pré-conceito' Rael
mostra uma letra em que demonstra o sofrimento do negro de cada dia.
“Se é crime fazer rep, então me leve em flagrante”, brada Rael
na canção. 'Envolvidão' mostra o lado melodioso de Rael, um soul
malemolente com rima tensa e sagaz. 'Hoje é dia de ver' encerra o EP
com beleza e sofisticação e uma mensagem de força a todos os
“correrias” do dia a dia de hoje em dia.
Esdras Nogueira
homenageia Hermeto Pascoal com álbum solo recheado de composições
do albino hermético.
Esdras Nogueira é um
dos fundadores da banda brasiliense 'Móveis Coloniais de Acaju',
onde toca saxofone barítono.
Em seu primeiro
trabalho solo, Esdras juntou um time de grandes feras do cenário
musical brasiliense, Célio Maciel na bateria, Vavá Afiouni no
baixo, Marcus Moraes nos violões e na guitarra, Dudu 7 Cordas no
violão de 7 cordas e cavaquinho e Leo Barbosa na percussão.
Com todo esse time,
Esdras reuniu um punhado de composições do Hermeto Pasocal e
produziu o álbum, junto com Marcus Moraes, Dudu 7 Cordas e Gustavo
Dreher, que também foi o técnico de gravação. Com arranjos
coletivos, o disco ficou pronto cheio de estilo e gêneros dispares,
mas mesmo assim complementares.
Tem o samba como em
'Viva o Rio de Janeiro', 'Chorinho pra ele' e em 'Capivara', que dá
nome ao disco e tem um lado bem jazzístico. Esdras expõe o lado
hermético e experimentalista em 'Ginga carioca', 'Vale da Ribeira' e
'Voa Ilza'. Mas também extrai o tempero latino de 'Irmão latinos',
o frevo em 'Frevo em Maceió' e a delicadeza das melodias do maestro
em 'Balaio'.
Além de músico o cara
é um cozinheiro de mão cheia – junto com a esposa – ele mantém
um site gastronômico onde ambos oferecem jantares especiais a um
grupo de colaboradores e mantenedores do restaurante informal e
interativo. No projeto 'Coma Lá em Casa', além da comida Esdras
também oferece um bom papo e música boa. Da mesma forma que a
entrevista abaixo.
Como surgiu a vontade
de gravar esse disco com músicas do Hermeto?
Queria fazer um disco
solo, instrumental com o sax barítono, depois de três discos e dois
dvds com o 'Móveis', deu vontade de fazer algo diferente, o trabalho
em grupo é massa, mas queria paralelo a isso fazer algo que ainda
não tinha feito. O Hermeto é um cara que sempre admirei, e a
música dele mudou o meu jeito de tocar, de entender a música, ele
tem muita identidade, e muitas composições lindas, resolvi me
arriscar.
Como você selecionou o
vasto material do maestro albino? Uma vez que ele próprio publicou
aquela carta autorizando quem quiser a gravar suas músicas...
Pois é essa carta é
de uma generosidade, muito massa, depois disso fiquei mais fã ainda.
Fiquei um ano pensando no repertório, nas músicas que ficariam bem
no sax barítono, músicas de diferentes estilos, mas o Hermeto é um
dos maiores gênios da música de todo mundo, e tem muita coisa boa,
foi difícil separar só nove.
Como ocorreram as
gravações deste álbum? Qual foi o processo dos arranjos?
Se a seleção de
repertório foi longa, a gravação foi muito rápida. Fizemos cinco
ensaios e cinco diárias. Pensei no caminho que queria para cada
música, sentei com o Marcus Moraes e com o Dudu 7 Cordas e
direcionamos as idéias.
Foi uma vibe muito boa.
Tocar com essa galera foi um prazer enorme, caras muito bons, um
privilégio fazer esse trabalho com essa moçada.
Como foi o processo de
gravação?
Foi muito colaborativo,
todo mundo deu muito ideia e no final o arranjo é o que mais conta
do trabalho, e esse foi todo mundo junto. A mixagem foi feita pelo
Gustavo Dreher, a masterização pelo Thomas Dreher, a arte da capa é
do Bernardo França e o design do Gustavo Goes.
Como você vê essa
questão de downloads gratuitos? Você acha que é benéfico ao
artista?
Acho ótimo. Pelo menos
pra mim é muito bom, é a maneira direta e mais fácil de chegar na
casa das pessoas, e quem quiser, depois pode colaborar no site, pode
comprar no itunes, tem o disco físico, mas se só baixar de graça
já está valendo. Isso cria um público e aproxima as pessoas, acho
que o caminho da música é por aí. O 'Capivara' tá de graça pra
download no meu site, http://www.esdrasnogueira.com.
O tributo à banda
'Engenheiros do Hawaii' apresenta grande diversidade de bandas e
artistas no cenário musical brasileiro.
Lançado pelo site
'Scream and Yell', da mesma forma que a homenagem ao clássico
seminal de Belchior, 'Alucinação', o tributo aos 'Engenheiros do
Hawaii' reapresenta os grandes sucessos da banda na voz de outros
artistas.
Gente como o cantor
Dary Jr. da banda 'Terminal Guardalupe', que assume a persona de
Dario Julio e os Franciscanos e apresenta 'Números'. Bem como as
bandas 'Forfun', com 'O Papa é pop'; 'Monocine', com 'Refrão de
bolero'; 'Nevilton', com 'A promessa'; 'A Banda mais Bonita da
Cidade, com 'Pose'; e muitos outros grupos.
Destaque especial para
a reconstrução de 'Terra de gigantes' com Phillip Long, 'Infinita
Highway' com o 'Strobo', 'Alívio imediato' com 'Dias Buenos', 'Somos
quem podemos ser' com 'Dingo Bells', 'Eu que não amo você' com Lula
Queiroga, 'Pra ser sincero' com a cantora japonesa 'Tsubasa Imamura',
entre muitas outras canções e intérpretes.
2014 Espelho Retrovisor
(Tributo aos Engenheiros do Hawaii)
Em segundo álbum,
Criolo busca expandir o alcance do álbum de estréia assumindo um
posicionamento crítico em favor de mais amor e tolerância.
O clima abre tenso no
novo álbum do Criolo, 'Convoque seu Buda' é o título do petardo,
bem como a faixa de abertura, que inicia como um golpe marcial. A
canção pode ser considerada uma irmã mais nova de 'Lion Man' –
do disco anterior, 'Nó na Orelha' – porque emula os sons da África
oriental, mais precisamente da Etiópia de Mulatu Astatke. A canção
ainda trás referências ao desenho Naruto, ao movimento “ocupai”, energia eólica etc.
Na sequência, Criolo
apresenta um batuque afoxé de introdução para a pedrada na orelha
de 'Esquiva da esgrima', na qual ele apresenta diversas referências,
pérolas poéticas e rimas tensas e frenéticas como “nas benção
de Padim Ciço às letras de Edy Rock”. Cabe até um recado aos
golpistas do momento em “pois quem toma banho de ódio exala o
aroma da morte”.
Quem disse que rap não
pode ser pop? Engana-se porque o Criolo faz isso como ninguém, vide
a canção 'Cartão de visita' com participação de Tulipa Ruiz,
após uma introdução especialmente radiofônica. O som faz
reverência ao funk estilo 'Parliament' e 'Funkadelic' de George
Clinton. Uma crítica mordaz à elite brasileira como diz na letra em
“O opressor é um míssil e o sistema é cupim e se eu não existo,
por que cobras de mim?”. No final, Criolo tece uma súplica a
Lázaro Ramos ou alguém que nos ajude a entender essa “gente
indigesta”. Uma canção que poderia ser considerada como o reverso
direto de 'Gente humilde' do Chico Buarque – e não é a
primeira vez que o Criolo reverencia o cantor de Holanda como fez na
versão exclusiva de 'Cálice', a qual o próprio Chico homenageou em
show.
Porra Criolo! Ainda nem
cheguei ao meio do álbum de você já veio com 'Casa de papelão'?
Uma canção de letra pungente recheada de figuras de linguagem e um
arranjo de sopros de um Thiago França inspiradásso. O cara
simplesmente incorporou o maestro Leitieres Leite em vida, ou se
melhor quiserem Villa-Lobos, Radamés Gnatalli ou qualquer um de sua
melhor escolha. “Toda pedra acaba, toda brisa passa, toda morte
chega e laça, são pra mais de um milhão... corpos na multidão”,
diz Criolo na letra.
Depois de toda polêmica
ao redor do samba 'Linha de frente' – já resolvida com o sambista Mamão – Criolo vêm com o samba de roda 'Fermento pra massa', na
qual ele conta o cotidiano dos subúrbios de todo país e suas
agruras diárias. Como sempre, nas letras do Criolo, existe uma
crítica velada na alegre narrativa da canção, onde ele traça uma
crônica do caminho que o pão de todo mundo faz desde a mesa do
consumidor ao padeiro, atrasado por causa de uma greve de ônibus.
'Pé de breque' retorna
ao dub – como 'Samba sambei' do disco anterior – e faz diversas
referências culturais, como sempre ocorrem nas canções do Criolo,
numa velocidade internética. 'Pegue pra ela' é o afrobeat do álbum,
onde Criolo demonstra toda sua destreza de ótimo poeta
contemporâneo, vide “Toda cultura vira comércio, é o ponto de
degradação, então, se pra cada ponto, processo e cada processo uma
ação”.
'Plano de vôo' tem
participação insana de 'Síntese', que até ele ficou sem fôlego
depois de cantar toda aquela letra toda na mesma talagada de uma só
vez sem nenhuma parada... 'Duas de cinco' já havia saído antes como
single – inclusive recebeu clipe super-produção junto com o lado B, 'Cóccix-ência'. Essa canção foi construída por cima de
'California azul' de Rodrigo Campos, do álbum 'São Mateus não é
um Lugar Assim tão Longe'.
Na faixa de
encerramento, Criolo compõe em cima da canção 'Padê Onã' de Kiko
Dinucci e o 'Bando AfroMacarrônico', criando a híbrida 'Fio de
prumo (Padê Onã)', que mistura afoxé com baião e com maracatu.
Com vocais de Juçara Marçal e rima forte do próprio Criolo, que
mescla Ori com Ogi, revide com declive, 80 com cibalena, vai com
stand-by e muitas outras métricas.
O disco novo do Criolo
merece todo esse alarde e cumpre toda expectativa em cima dessa obra.
O disco trás a mesma coerência com o saber empírico, que o
maloqueiro doido sempre apresentou – um posicionamento em prol de
mais amor e mais tolerância.
O som cosmopolita do
'Sacassaia' se volta mais aos ritmos brasileiros, mas também segue
investindo no ragga, reggae, dub e similares.
Da ultima vez, o
'Sacassaia' era um duo formado por Gardenel e Tony Robalo, mas tinha
diversas participações especiais de Renato Matos, em várias faixas
do álbum de estréia, 'Sampleando Deus e o Mundo' de 2009. Hoje o
que eram dois viraram três – efetivando de vez a inclusão do pai
do reggae brasiliense, bem como adotando os nomes Gabriel Reis e
Tomás Seferin, respectivamente.
Com esse lançamento,
'Boca da Terra', o 'Sacassaia' se firma no cenário musical nacional,
com um álbum recheado de influências afros de terreiros de umbanda
e candomblé, mas tudo devidamente temperado com as batidas
eletrônicas de Tomás, a rima tensa e nervosa de Gabriel com a voz
gentil de Renato e seu “ziriguidum do além”.
Logo de cara se percebe
que a estimada contribuição de Renato Matos fez bem ao som da
dupla, que agora é um trio. Não fosse a presença do cantor e
compositor de 'Um telefone é muito pouco' – conhecida
nacionalmente na voz de Leo Jaime – o 'Sacassaia' não teria a
inclusão de temas africanos e dialetos de umbanda e candomblé.
Essa adição de novos
temas e batidas deixou o o som da banda mais orgânico que
eletrônico, num contraponto ao disco anterior – 'Sampleando Deus e o Mundo'. Destaque para canções como a faixa-título 'Boca da
terra', 'Remandelagem', 'Barravento', 'Dizeres desertos', 'Ninguém
dorme' e 'Boca oca'.
O estilo de letras
recheadas de aliterações e referências inusitadas deixa uma
atmosfera delirante. O disco também tem inúmeras participações
especiais como Rafá Dorneles, Lupa Marques, Moises Alves, Edinho
Silva, Tekokatu Enitan, Ras Kakaroto, Vitor Pirralho, Renata Jambeiro
e Ellen Oléria.
O 'Muntchako' é uma
pancada forte no estômago. Dessas que pode ser sentida também dos
tímpanos aos pés. É como um soco de uma polegada do Bruce Lee, e
também flui como água, sem a menor contenção.
Ë ao mesmo tempo um
som macio e áspero, revelando toda a dureza da arma de artes
marciais. Mas também é suave e pesado como deve ser todo som
recheado de groove. De balanço o 'Muntchako' é cheio. A sonoridade
remete à clássicos como Fela Kuti e Santana, mas também aparecem
influências mais atuais.
A construção sonora
denota certos elementos cinematográficos com um roteiro livremente
inspirado nas artes marciais – relacionando também o nome da banda
com o cenário dos filmes de luta. A utilização de elementos
analógicos, digitais, orgânicos e eletrônicos faz com que o som
seja visto como uma entidade mais parecida a um ciborgue.
Formado por Macaxeira
Acioli (percussão e samplers), Rodrigo Barata (bateria e samplers) e
Samuel Mota (guitarra, synths e programações), o 'Muntchako'
apresenta um som de pegada firme e forte como qualquer golpe fatal.
Com a grafia incorreta, Acioli afirma que acredita dessa forma apelar
ao inconsciente coletivo brasileiro, que já é acostumado com o erro
da escrita.
O certo é que o
'Muntchako' apresenta uma forma única de fazer música, onde
realmente os fins justificam os meios. Tudo pode, desde a utilização
de qualquer ritmo a quaisquer timbres e não existem amarras para a
realização de qualquer parada. O 'Muntchako' surfa nesta nova
maneira de se produzir e consumir música decolando de forma
surpreendente com uma canção ao mesmo tempo hype e vintage.
'Emojubá' é o nome do
petardo e trás referências de tudo que esses camaradas produziram
até hoje. Acioli trouxe reverências do 'Cabruêra' e 'Hypnotic
Brass Ensemble', Barata da banda 'Sistema Criolina' e Samuel do 'Jah
Live' e GoG.
Os três formam um trio
diferente, que combina muito bem todas as distintas qualidades,
unificando o som numa parede sonora, que mal pode ser classificada em
qualquer gênero ou estilo. Ouve só, que a cuca fundida é
garantida...
Cantor paulistano
apresenta obra madura em disco conceitual cheio de referências que
vão desde 'Bossa Nova', 'Tropicália' ao 'Clube da Esquina'.
O terceiro álbum de
Pipo Pegoraro chega com identidade única e apresenta uma banda de
pegada forte, firme e coesa. Com produção e direção musical de
Romulo Fróes, a banda fez uma imersão em estúdios de ensaio e
definiu os arranjos de todo disco.
Esta banda é formada
por Décio 7 na bateria, Gustavo Cék na percussão, Marcelo Dworecki
no baixo, Cuca Ferreira no saxofone e flauta, Fernando TRZ no piano e
Lucas Cirillo na gaita, além do próprio Pipo nas guitarras e
vocais.
O álbum abre com
'Aiyê', uma delicada overture para um complexa obra conceitual.
'Cambaleei' tem participação de Xênia França nos vocais – que
também divide os vocais com Pipo na banda 'Aláfia'. 'Dia desses'
apresenta uma peça “rockenrou”, meio afrobeat, meio jazz – um
dos belos resultados dos ensaios exaustivos para a criação de todos
arranjos.
'Indecifrável' tem a
voz de Filipe Catto – sem falar na segunda aparição de Xênia –
com a percussão adicional de Guilherme Kastrup, o clarinete de Luca
Raele e baixo acústico de Marcelo Cabral, numa canção composta em
parceria por Pipo e Fróes. 'Olhos de Henri' é o perfeito interlúdio
para esta obra envolvente e “submersiva”.
'Sabão de coco' trás
um quarteto de cordas – com Veridiana Oliveira e Alexandre Brito
(violino), Marcio Eli Junior (viola) e Yaniel Matos (violoncelo) –
numa canção de estranha beleza, mas que remete ao som natural do
Brasil, evocado lindamente anteriormente por Tom Jobim e pelos
mineiros do 'Clube da Esquina'. Além das influências das terras
tupiniquins, Pegoraro apresenta referenciais no outro lado do
Atlântico.
Em 'Pra continuar' ele
introduz o tema em loop remetendo à introdução de 'On the run' do
'Pink Floyd' – no 'Dark Side of the Moon'. Para logo em seguida
apresentar ecos de 'Let there be more light' –
faixa de abertura do álbum 'A Sacerfull of Secrets' do mesmo 'Pink
Floyd'. Com a voz cadente de Romulo Fróes, a canção parece mesmo
ter saído de algum álbum dos bardos ingleses, mas sempre mantendo o
tempero característico do inúmeros mulatos inzoneiros, que são
reverenciados neste álbum.
'Saudação' segue como
uma vinheta de abertura para a canção 'Rosália', que conta com o
vibrafone de Beto Montag fazendo contraponto ao conjunto da obra.
Nessa canção, Pipo vai desvelando o material e deixando claro que
sua zona de conforto ficou para trás – como diz a letra em “me
levaram pra navegar em outras águas” – canção de Pipo e Pablo Casella.
'O que só cabe em nós'
encerra o álbum dando um resultado a todo contexto, como o final de
um tear ou numa colagem antropofágica. Com a voz de Luz Marina e
composta numa parceria de Pegoraro com o poeta Arruda, a canção além
de dar título à obra, revela o significado de tudo que foi
apresentado desde então.
O disco de Pipo Pegoraro define-se apenas no final. Desvela-se quando finda.
Enfim... Ouça até o fim e verá...
Como uma Unidade, Saulo
Duarte e banda apresentam o veneno do Quente, segundo álbum do
grupo.
Saulo Duarte despontou
em 2013, com o ótimo disco auto intitulado e grandes canções como
'Amor de piração', 'Mistério no olhar', entre outras. Tocando com
o mesmo grupo há seis anos – 'Saulo Duarta e a Unidade' como são
conhecidos – eles fazem uma sequência perfeita para o disco do ano
passado.
O álbum 'Quente' faz a
mesma receita dançante e cosmopolita de sons latinos como a cumbia,
o carimbó, calipso, reggae, lambada e guitarrada, e simplesmente uma
música boa para ouvir e requebrar os quadris. Mas que fique bem
claro que lambada é o mesmo que guitarrada.
Com um disco de canções
populares, Saulo passeia em um repertório de canções inéditas que
se valem de diversos ritmos latinos. Tem a guitarrada de 'Zonzon' e
'Lambada do anel', mas também trás a cumbia de 'Flores do ar' e
'Dos olhos em diante', que mistura influências
westerns-norte-americanas.
Com Duarte nos violões,
guitarras e vocais, João Leão nos teclados, Klaus Senna no baixo,
Beto Gibbs na bateria e Túlio Bias e Igor Caracas nas percussões, a
banda bem afinada e azeitada esbanja naturalidade e ainda conseguiu
participações de gente como Manoel Cordeiro, Betão Aguiar, Mestre
Dalua, Jorge Ceruto e muitos outros.
Em 'Yo vengo' o grupo
apresenta uma balada carregada na sensualidade dos vocais de Vera
Souza, enquanto 'Massafera' abusa do suíngue na participação
cósmica de Daniel Groove. O reggae de 'Me dei conta' tem a
participação de Curumin, que também toca clavinete e mpc.
Há carimbó nas faixas
'Tô que tô... saudade' com os vocais de Luê, e 'No coração da
mata' com a voz de Felipe Cordeiro. Esta última canção encerra o
álbum com ares tropicalistas e referências mil de Caetano aos
arranjos de Julio Medaglia.
O disco apresenta um
Brasil Amazônico ao dar uma roupagem popular à todos os cânticos
tradicionais dos povos de todos os lugares. Para todos aqueles que
ouvêm desde Gaby ao Mestre Lua.
Compositor paulistano lança quinto disco da carreira solo entre o silêncio e a palavra, o samba e o experimental.
O álbum 'Barulho Feio'
mostra um Romulo Fróes hermético e cheio de caos e simplicidade,
com as participações de Marcelo Cabral (baixo elétrico e
acústico), Guilherme Held (guitarra) e Thiago França (saxofone).
Pode ser um disco de samba, mas também pode ser experimental, bem
como também da nova safra de música popular brasileira.
Romulo vêm como um cão
calado que morde para depois assoprar. 'Barulho Feio' abre com a
cacofônica 'Não há, mas derruba' para em seguida dar lugar para a
delicadeza de 'Na minha boca'. Nesse disco, a rua está presente como
fio condutor entre todas canções, criando uma unidade para todo o
conjunto – como deixa bem claro na canção seguinte. 'Pra comer' é
delicada e ao mesmo tempo cheia de brutalidade.
O violão de Fróes
pontua 'Como um raio', seguida pela voz clara e nua em 'Poeira' –
“poeira os olhos dentro d'água” diz a letra de Nuno Ramos dentro
da melodia de Mariana Aydar. Porque o disco é sobre melodia do
silêncio e da palavra – como bem exemplificado na canção-título,
'Barulho feio'.
Em 'Espera' Fróes faz
um dueto com Juçara Marçal, sobre os sons de rua que apesar de
permanecerem em segundo plano estão sempre prevalecendo entre uma
canção e outra. 'Ó' trás referências e reverências às canções
de bossa-nova, com a desconstrução total de todos elementos que
tornaram o movimento tão bem sucedido.
'Peixinho triste' foi
composta por Lanny Gordin, Held e Ramos, onde os sons da rua se
confundem com a melodia, criando uma ponte perfeita para a próxima
faixa, 'Cadê'. Na sequência 'Se você me quiser', mais um exemplo
do bate e consola deste álbum. 'Noite morta' segue distorcendo e
entortando até não sobrar osso sobre osso.
Em 'O que era meu',
Fróes transforma o ouvinte nas cordas do violão (ou guitarra) no
momento de afinação do instrumento. Esticando e tencionando todas
percepções auditivas. 'Para ouvir sua voz' retira toda tensão
aplicada na afinação forçada para dar lugar à delicadeza bela e
simples. Encerrando na singela 'A luz dói'.
O álbum 'Barulho Feio'
é uma obra coerente e coesa entre si e todos outros discos lançados
este ano. Com este disco, Romulo se detém como maestro de uma
geração – ditando modelos e retirando quaisquer limites quanto
gêneros, ritmos e estilos.
No 'Paraíso da
Miragem' é título do disco de estréia de Russo Passapusso, e
também é o primeiro grito entoado pelo cantor.
Russo Passapusso é
conhecido pela voz única, que ao mesmo tempo remete ao suíngue
malandro de Jorge Benjor ao flow intenso dos cantores de rep atuais.
Russo é a voz a frente de bandas como 'BaianaSystem' e 'Bemba Trio',
assim como em trabalhos de outros artistas, como Curumin, Anelis
Assumpção, Maga Bo, entre outros.
A mistura de ritmos e
estilo é o ponto de partida deste álbum. Em 'Paraquedas', Russo
mistura afrobeat com maracatu como a coisa mais natural do mundo.
'Remédio' entra na sequência como um hino roquenrou estadiofônico
com a guitarra de Edgard Scandurra, que no final arrefece o clima
lentamente até levá-lo a outros caminhos...
'Flor de plástico'
segue como uma ode ao cancioneiro de Benjor, no melhor estilo
'Domingo 23', 'Que nega é essa', 'Mulher brasileira' etc. “Nessa
terra-rá-rá-rá, nesse vaso-zum-zum-zum”, suínga Russo. Em
'Anjo', Passapusso apresenta um ser-alado negro e mulato, que desce
ao país do samba para curtir um barato na terra-rá-rá-rá.
'Sem sol' apresenta a
voz de Anelis Assumpção em dueto com Passapusso, num interlúdio do
álbum. Uma serenata da “lua de prata, ingrata, (que) eclipsou”....
'Areia' é um samba vocal de letra minimalista e arranjo corpulento.
'Sangue do Brasil' vem como um híbrido entre o sambajazz e
sambarock, clima que se mantém na canção 'Relógio'.
'Sapato' apresenta a
participação de Thalma de Freitas nos vocais com Passapusso. A
letra segue a levada de construção impressionante de Russo, com sua
peculiar mistura do suíngue com o flow. 'Devagar', com programação
e guitarra de Junix, é quase como uma vinheta de introdução para
'Matuto', um sambarep eletrônico, cheio de barulhinhos e
programações, que mostra Russo muito a vontade em misturar todos
esses elementos.
'Autodidata' encerra o
álbum com participação de B. Negão e Fael Primeiro. Com este
disco, 'Paraíso da Miragem', Russo Passapusso inscreveu seu nome no panteão dos novos
grandes artistas que têm um discurso musical significativo e não
têm medo do download gratuito.
Trompetista acredita
que a auto-produção e promoção é a verdadeira ferramenta do
artista em meio às mudanças do novo mercado musical.
Leandro Joaquim é o
trompetista de bandas como 'Abayomy', 'Paraphernália' e da banda de
apoio de Jards Macalé – sem falar que foi um dos fundadores da
banda 'Sobrado 112', junto com Zé Vito e Claudio Fantinato, que
também o acompanham nas levadas afrobeat.
“O Sobrado 112 foi
nosso celeiro de idéias e laboratório de produção e criação por
muito tempo. A demanda era grande, a
banda gravou três discos em três anos. remamos muito juntos, mas
demos muita cabeçada também”, declara Leandro. Para ele, a banda
encerrou as atividades pela preservação das amizades – tanto que
todos tocam juntos na 'Abayomy'.
Leandro lançou o
primeiro álbum solo, 'Sobre as Cores e o Nosso Tempo', com produção
de Ricardo Dias Gomes – que toca baixo e piano com o 'Do Amor' e
com a banda 'Cê', de Caetano Veloso. “Como eles já tocam a muito
tempo com o Caetano e tem uma linguagem de banda bem definida e uma
pegada seriamente roquenrou, o Ricardinho chamou o Pedro Sá e
Marcelo Callado pra fazer as primeiras bases”, conclui.
A gravações
aconteceram no 'Audio Rebel', com um equipamento das antigas e fitas
de duas polegadas. “Tudo isso pra trazer o amalgama do som que foi
gravado ao vivo, em sua grande maioria. Refiz apenas vozes e sopros.
A base valeu sempre o melhor take ao vivo”, afirma Leandro.
O álbum abre com
'Jóias e gestos' – “um blues de protesto que fiz pra uma
vizinha. A letra traça um paralelo entre os diversos equívocos de
comportamento que nossa sociedade moderna desfila, e a zona que era
aquela casa! Cru, o synth é sujo, na bateria usamos apenas os mics
“over all”. Amps de baixo e guita na mesma sala da batera. Pintou
também uma surdina wha-wha no trompete que quase parece uma gaita”,
comenta Leandro.
Sobre 'Pero que si,
pero que no', Leandro confirma que compôs “esse Ska no tempo do
Sobrado e tocávamos na abertura do show, porem em ritmo de tango!
(rs) Marlon Sette e Ze Carlos Bigorna fizeram trombone e sax tenor
comigo. Gustavo Benjão fez guitarra pica-pau. Ficou Skatalites
total!curti muito o resultado, e ainda tem um feedback da máquina de
fita no inicio que dá uma onda “Jamaica Studio One””.
'Em suma, na real, de
fato' Leandro trouxe de volta o pessoal do 'Sobrado 112'. “Convidei
os caras do 'Sobrado' pra fazer uma releitura dessa musica que
tocávamos mas nunca gravamos. Legal notar a influencia afrobeat já
constando, mesmo antes de fundarmos a 'Abayomy Orquestra'.
'Sobre as cores e o
nosso tempo', “era uma bossa nova que fala de amor e paisagem,
porém foi desconstruída e virou uma sinfonia de ruídos e
passarinhos cibernéticos, sem samba, sem violão. Os efeitos e
ficaram por conta do Duplexx, Leo Monteiro e o Rodrigo Bartolo. O
desfecho da sinfonia se dá com um solo de flugelhorn estilo Chet
Baker e o Bartolo fazendo uma guitarra (no melhor estilo Lafayette)
Roberto Carlos. Tem um synth subwoofer do Ricardo Dias Gomes, que
chega a ser desconfortável de tão sub!! Acrescentamos uma certa
acidez e estranheza naquela paisagem bossa-novística”.
'Tanto quando o
encanto' é a balada do álbum. “Essa valsa minimalista tem uma
certa influência erudita. Usei piano fender rodhes e a Joana Queiroz
gravou o clarinete, que passeia lindamente ao redor da letra que fala
de amor, jardim, flor, colibri e girassol”, comenta Leandro.
Em 'Fofafifo's blues',
Leandro apresenta as participações de Alberto Continentino no baixo
acústico, Stephane San Juan na bateria, Ricardo Dias Gomes no rhodes
e Rodrigo Munhoz no sax tenor. “É um blues estilo “boogaloo”,
meio funkeado, meio jazzy”, confirma ele.
'Daqui pra frente é só
relaxo' continua a tradição “sobradiana” de modificar canções
pré-concebidas em certo estilo para uma coisa completamente
diferente. “Era chorinho, mas virou dubwise puro”, ressalta
Leandro. 'Faça algo por você' trás a participação de B. Negão
nos vocais. “É uma crítica contundente e levante contra a
manipulação feita pelo sistema através dos veículos de
propaganda”, afirma ele.
O álbum se encerra com
'Dona de castelo' de autoria de Jards Macalé e Waly Salomão, com
participação de Joana Queiroz no clarone em contraponto com o baixo
de Ricardo Dias Gomes. “O próprio Jards sugeriu que eu gravasse
uma de suas baladas em versão instrumental e eu escolhi a mais
dificil!!! (rsrsrsrs)”, encerra Leandro.
Pela própria
auto-produção e promoção, Leandro lança este álbum com
propriedade de quem já é veterano. Apresentando um punhado de belas
canções embaladas num produto de extremo bom gosto.
O fato é que este
disco é uma das grandes surpresas do ano e com certeza um dos
grandes lançamentos atuais.
A banda 'Superlage'
cria um som único, que apresenta uma mistura homogênea entre os
ritmos latinos e brasileiros e a música eletrônica.
A banda 'Superlage' foi
formada em Pernambuco pela dupla Raimundo Alfaia e Eudes Ciriano,
também conhecido como DJ Incidental, e conta com diversas
participações como Jana Figarela, Alessandra Leão, Tom Rocha,
entre outros.
O disco de estréia da
'Superlage' trás uma seleção de ótimas cumbias inéditas com uma
roupagem eletrônica bem dançante. Toda cumbia já tem uma levada
jamaicana, que quase pode ser reconhecida como reggae, mas que a
percussão se encarrega de levar para um terreno “mucho más
caliente”.
O álbum, 'Superlage',
começa com 'O teu calor', uma cumbia eletrônica, que funciona como
uma bela síntese do resto da obra – gravada como trio por Jana,
Eudes e Alfaia. 'De tanto esperar' revela uma leitura precisa dos
bailes de cumbia através da visão peculiar de Eudes e sua crônica
sensual e elegante.
'La cicimila' repete o
mesmo cenário lúgubre dos salões de dança, seguida por 'Cumbia
das flores' – canções que já trazem as participações de Pierre
Leite nos sintetizadores e Rocha nas percussões. 'Quero brincar de
sol' reflete toda incidência de luz recebida do Astro-Rei, com
Mauricio Candussi na sanfona.
'Dia de Rei' é uma
homenagem a Iemanjá, seguida pela instrumental 'Uh la lai', lançada
anteriormente como trabalho do DJ Incidental, mas incorporada no
repertório da banda. 'Baila perfumada' talvez seja a única canção
mais calcada nos ritmos jamaicanos, como reggae e ska. Isto é, sem
muito da influência latina da cumbia, nem as interferências
eletrônicas presentes nas outras faixas.
'Se o teu desejo é
amar' apresenta um carimbó-havaiano, com o luxuoso auxilio da voz de
Alessandra Leão e do naipe de metais formado por Gilberto Reis no
sax alto, Daniel Galego no barítono, Augusto França no trompete e
Thaison Ferreira no trombone – sem falar na guitarra de Juliano
Holanda e guitarra-slide de Vitor Magall.
'Trança de raiz' segue
a linha latinidade e mostra uma salsa-calipso com a pegada
eletrônica, característica da banda. Enquanto 'Para de chover'
retoma a cumbia de riff poderoso e pegajoso. O disco encerra com o
remix ciranda-maracatu do DJ Lúcio K. para a canção 'O teu calor'.
As canções do álbum
servem ao conceito da mistura de ritmos, gênero e estilos. “Todas
têm esse chiado da cumbia, que cabe num afoxé, num forró, num
samba e por aí vai – enfim, não tem como determinar, será o que
você escutar e achar que é”, define Eudes.
Com este petardo, o
'Superlage' apresenta um som único extremamente dançante, com a
elegância habitual de seus realizadores, Eudes e Alfaia, que assinam
a produção do disco, junto com o verniz de Buguinha Dub na
masterização e direção técnica.
Filhos da vanguarda
paulistana apresentam o novo rock psicodélico brasileiro com um olho
no passado e outro no futuro.
A guitarra de Tim
Bernardes é cada vez mais feroz, o baixo de Guilherme d'Almeida, o
'Peixe' emana suingado e sofisticação enquanto a bateria de Vitor
Chaves carrega cada vez mais peso e balanço. Fora as participações
especiais de gente como Tom Zé, Luiz Chagas, Marcelo Jeneci, entre
outros.
Com letras inspiradas
Tim propõe uma crônica cotidiana, surreal e por vezes propondo
teoremas conspiratórios. O álbum abre com a rasgante 'Bote ao
contrário' de instrumental sofisticado calcado nos teclados
especiais do próprio Tim. 'O cinza', única parceria de Tim com
Chaves (todas outras composições são apenas de Tim) tem o riff
poderoso de abertura substituído por um clima delicado até a
melodia explodir em mil pedacinhos como “o jornal arremeçado”,
da letra da canção – que descreve um dia nubloso em São Paulo de
forma poética e singela.
'Ai ai como eu me
iludo' poderia ter sido gravada por Otis Redding, caso este falasse
português, mas cabe bem no arranjo poderoso d'O Terno'. Canção
calcada no órgão Hammond de Pedro Pelotas, onde Tim apresenta mais
uma crônica pessoal do cotidiano. 'Quando estamos todos dormindo'
tem o órgão Saema de Marcelo Jeneci e mostra uma das teorias
malucas de Tim, onde ele especula sobre o que fazem as pessoas
enquanto dormem. “Porém saibam que o sonho é o que é real de
fato, e o que era concreto na verdade é abstrato”, diz ele na
letra.
Em 'Eu confesso' Tim
trás mais uma análise pessoal psicológica das pessoas em si,
seguida por 'Brazil' com letra em inglês e uma versão lúdica e
fantasiosa dos cenários tupiniquins – com direito a selva criada
em estúdio pela banda e auxílio de Gabriel Basile. 'Pela metade'
tem mais outra crônica característica de Tim, com sua letra
conversada e cantada – como um papo de amig...
'Medo do medo' tem
participação de Tom Zé e mostra o domínio da banda em criar uma
atmosfera que encaixe no sentido das letras. 'Eu vou ter saudades'
tem a mesma atmosfera soul e a mesma participação de Pelotas no
órgão Hammond, bem como o lap steel de Luiz Chagas (guitarrista da
'Isca de Polícia'). 'Vanguarda?' ou 'Filhos da Vanguarda (ou não)'
faz um belo relato sobre a situação do jovens artistas paulistanos,
que cresceram sob as influências familiares, ou não, da 'Vanguarda
Paulistana'.
Em 'Quando eu me
aposentar' Tim sugere que a hora de descansar está diretamente
relacionada com a sensação de ter completado algo na vida – mas
que este sentido dá-se apenas no presente. 'Desaparecido' trás
outra letra característica de Tim, com um história fabulosa de
ficção-científica envolvendo clones, sequestro e crises
existenciais – com participações de André Vac nas rabecas e
Gabriel Milliet no sax e flautas.
Através do “desespero
doentio de quem não sabe enfrentar o vazio”, 'O Terno' encerra o
disco com delicadeza suficiente para deixar a sensação de que falta alguma coisa... Pois a verdade é que falta mesmo... Dê play
novamente, que você descobrirá o que é...
Estrela Ruiz Leminski
apresenta uma seleção de belas canções compostas pelo pai, o
poeta curitibano Paulo Leminski.
Após o ótimo álbum
lançado em parceria com Téo Ruiz, 'São Sons', sob a alcunha de
'Música de Ruiz', Estrela Ruiz Leminski selecionou um diversidade
fantástica de canções da obra musical de Paulo Leminski, o poeta
marginal de Curitiba, para o álbum 'Leminskanções'.
O disco duplo separa-se
em dois momentos distintos da obra de Leminski – o disco um, 'Essa
Noite Vai ter Sol', apresenta um punhado de composições próprias
do poeta, enquanto o disco dois, 'Se nem for Terra, se Transformar',
mostra diversas parcerias com grandes nomes da música brasileira,
como Itamar Assumpção, Moraes Moreira, Zé Miguel Wisnik, Edvaldo
Santana e até William Shakespeare.
Com produção musical
de Fred Ferreira e Natalia Malo, o álbum trás participações
especiais de gente como Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Zelia Duncan,
Ná Ozzetti, Serena Assumpção e Bernardo Bravo. Os músicos que
gravaram o disco com a cantora receberam o nome de 'Os Paulêra',
enquanto ela se apresenta agora como Estrelinski.
O disco é uma mistura
de diversos ritmos e segundo Estrelinski os arranjos foram feitos
baseados no que o próprio pai ouvia em casa. Por isso é fácil
encontrar o reggae com pegada moderna como em 'Filho de Santa Maria'
e 'Sou legal eu sei'. Mas também há o rock pungente como em
'Razão', 'Essa voz está sendo ouvida em Marte' e 'Hard feelings',
ou com groove balanceado brasileiro de 'Ogum', 'Não mexa comigo' e
'Promessas demais'.
Num álbum duplo,
também há espaço para a estranheza dodecafônica, tanto apreciada
por Leminski, de 'Desilusão', 'Transformar' e 'Diversonagens
suspensas', composta em parceria com a cantora e co-produtora do
disco Natalia Malo. Outra mistura inusitada culturas e ritmos dá-se
no âmbito de canções como 'Sinais de haicais' e 'Luzes', que
mescla ska com folk norte-americano.
'Verdura', 'Mudança de
estação' e 'Dor elegante' já são conhecidas do atento ouvinte por
outras vozes, mas receberam tratamento elegante e afetuoso da cantora
Estrelinski e suas estrelas, 'Os Paulêras'. Caetano, o pessoal d'A
Cor do Som' e Itamar não “sofreram nessa última hora” com a
releitura de suas canções em parceria com Leminski.
As belas baladas são o
xote 'Se houver céu', o rock 'A você amigo', a etérea 'Navio', o
blues 'Live with me', o jazz 'Hoje tá tão bonito' e a pop 'Oxalá'.
O disco duplo encerra com a bucólicidade de 'Nóis fumo', parceria
entre Leminski e Alice Ruiz, pais da cantora Estrelinski.
Como o pai, Estrelinski
é uma artista inquieta. Além de cantora e compositora é poetisa e
estudiosa da cena musical independente brasileira – lançou o livro
'Contra Industria' sobre este cenário atual e outras diversas obras
poéticas.
A banda 'Judas' mistura
a viola caipira com rock e pop, para criar um estilo único
intitulado como “hard-roça”.
A banda brasiliense
'Judas' nasceu do processo de reinvenção do compositor Adalberto
Rabelo Filho – paulistano típico com raízes em Pernambuco e Rio
de Janeiro. São dele as composições da banda 'Numismata' e as
parcerias com Thadeu Meneneghini para a banda 'Vespas Mandarinas'.
Quanto veio para
Brasília, Adalberto passou por dificuldades pessoais, mas encontrou
no mesmo cerrado do auto-exílio a ideia que faltava a sua
redescoberta como artista. Foi com a viola caipira do cerrado
característico da cidade, que ele ressurgiu com um punhado de belas
canções. Com as composições prontas, Adalberto buscou um time de
músicos para personificarem as canções e dar-lhes uma forma
definitiva.
Com produção,
guitarra e baixo de Kadu Abecassis, viola caipira e violão de Fábio
Miranda, piano e teclados de Helio Miranda, bateria de Augusto
Coaracy e algumas participações especiais, Lucas Muniz na sanfona e
clarone, Janaina Pereira ('Bicho de pé') nos vocais e Fernando
Rodrigues ('Pé de Cerrado') na percussão e no baixo em algumas
músicas.
'Nonada' abre o álbum
com a analogia do sentido da palavra – na obra de Guimarães Rosa
têm o significado de “ninharia” ou “coisa de pouco valor” –
com a forma que a cultura popular é tratada atualmente. Composta em
parceria de Adalberto com Fábio Miranda, que também compôs 'Flor
do Agave', uma ode à redenção pela flor do título, que brota uma
única vez para morrer dando lugar a novos frutos.
'Adeus violeiro' traz a
primeira participação da cantora Janaina Pereira. Seguida por
'Mormaço', que releva o sentimento de que o “sertão está em todo
lugar”. Em 'Canção do exílio' Adalberto remete ao texto de
Gonçalves Dias, 'Canções do Exílio', ao mesmo tempo em que fala
pela primeira vez da sensação de estar auto-exilado na capital do
país. Já na canção seguinte, Adalberto assume a posição de
candango nato em 'Cobra criada', com participação de Dillo Daraujo
e Pio Lobato nas guitarras.
'Caim' sugere uma suposta formação de uns 'Novos Goianos', através da influência de Raul Seixas
e dos 'Novos Baianos'. 'Entradas e bandeiras' trás a participação
de Cacai Nunes na viola de cocho, numa alusão ao êxodo e ao
desbravamento. 'De Comala a Macondo' mistura o realismo fantástico
do mexicano Juan Rulfo com o do colombiano Garcia Marques e com o
brasileiro João Cabral de Mello Neto.
'Dobrado' é a
delicadeza na forma de canção com a mistura do blues com o
cancioneiro popular violeiro. 'Lugar público' tem a participação
da rabeca de Siba Veloso e a voz de Janaina Pereira. De certa forma,
uma homenagem a José Agripino de Paula.
O disco encerra com
'Pássaro azul', uma canção de duplo sentido, que traduz o
sentimento de encerramento de um ciclo. Existe ainda uma faixa
escondida, 'Muçurana', uma singela reflexão que representa o
“Oroboro” – uma serpente (ou dragão) que morde a própria
cauda – reforçando o próprio significado do álbum.
Por isso, o álbum
'Nonada', que saiu pela 'Tratore', é uma obra coesa, que retoma a
tradição das canções populares e subverte as próprias
composições, trazendo-as à atmosfera atual e contemporânea.
Seguem algumas linhas
da conversa que tive com o mestre Adalberto...
Como foi que você teve
a certeza do que seria músico e compositor?
Eu não tenho certeza
ainda.
Na verdade, eu acho que
a música é mais um meio de expressão da minha poesia. Eu sou mais
letrista, gosto da disciplina que a música obriga as palavras a
assumirem, mas todas as melodias e a maior parte das harmonias eu
faço também pra dar sentido emocional ao que estou tentando
transmitir.
Diria-se o singer
songwriter (cantor compositor em português). Acho que o Leonard
Cohen seria o exemplo óbvio de referência.
E quanto ao
'Numismata'? A banda acabou? O último disco foi de 2009...
O 'Numismata' não
acabou, ele existe ainda, de certa forma. Nesse mês a gente lança
os lados B que ficaram de fora do 'Chorume' (2009) na plataforma
digital – o disco vai se chamar 'Jenkem' e sai no dia 27 de agosto.
E como surgiu a ideia do 'Judas'?
Cara, eu cheguei aqui
em Brasília e tive alguns percalços e o 'Judas' é a personificação
desse caminho de reinvenção de mim como artista.
É um personagem que eu
usei pra transcender essas dificuldades e ao mesmo tempo buscar a
identificação das pessoas. O exilado, o proscrito em sua busca de
redenção, o pária alfa.
Você
não acha que o nome 'Judas' carrega uma imposição negativa?
Eu acho. Mas a intenção
é essa. De se colocar na posição de condenado, pras pessoas ao
mesmo tempo escurraçarem e se identificarem, que nem na malhação
do Judas. Iisso permite que role uma sinceridade no “condenado”,
uma liberdade. Tipo assim, é muito massa almejar ser Jesus, é legal
tentar seguir São Francisco, mas todo mundo é Judas.
O importante é que a
galera entenda que a identificação é com as falhas, que o ser
humano é falho como o Judas. É uma lógica reversa da galera se
olhar no espelho invertido e ver que não se pode julgar ninguém.
Porque no final todo
mundo está sujeito ao erro. Falar a verdade e dar a real com
liberdade, por isso pus a gente nessa situação de erro. Porque
liberta.
É incrível que esse
sentimento seja extravasado usando a viola caipira, que é uma forma
de arte mais antiga e até discriminada...
É por isso que é
legal. Porque como terreno inexplorado é riquíssimo em
possibilidades, da mesma maneira que se releu o maracatu, o samba ou
o frevo. E faz essa ponte do cerrado, com São Paulo, minha terra
natal. Porque a viola é essencialmente paulista e é o primeiro
instrumento a aportar no Brasil, com os Jesuítas. E nada mais justo
que uma banda chamada 'Judas' venha levar a viola prum terreno mais
pop.
Fora que eu acho que
isso é natural no pop, como o manguebeat. É a possibilidade cíclica
do tempo e da eterna renovação das coisas, como diziam Leminski e
Wally Salomão (sobre a poesia do futuro).
Se eu fosse definir
melhor, diria que é uma retomada de fé no formato de canção
popular. A retomada de fé numa banda chamada 'Judas' – é própria
expiação pelos pecados.
Mas a gente foi atrás
de certa sonoridade híbrida, claro. Misturando as referências de
regionalismo com as referências do que é "pop". E as
letras fazem a liga...
E o que você está
esperando alcançar com esse trabalho?
Eu espero que a galera
se interesse pela proposta “diferente” e ouça bastante e curta
as letras bastante também...
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