domingo, 29 de dezembro de 2013

FRANÇA, MALAGUETA, PERUS E BACANAÇO

Inspirado no universo notívago dos bares paulistanos, o saxofonista Thiago França apresenta uma obra cheia de suíngue e balanço.


Thiago França é onipresente na nova safra da música brasileira. O saxofonista é co-fundador da banda 'Metá Metá', junto com Kiko Dinucci e Juçara Marçal, toca na banda do Criolo, também tem projetos como a banda 'MarginalS', 'A Espetacular Charanga do França' e o 'Sambanzo'.

Neste álbum, ele apresenta o universo da noite paulistana na visão do escritor João Antonio. O disco, 'Malagueta, Perus e Bacanaço' é livremente inspirado na obra literária de mesmo nome, escrita por Antonio. Na obra, Malagueta e Bacanaço são malandros que vivem de pequenos golpes nos bares da capital, enquanto Perus é o pivete que se vê no meio dos dois vagabundos.

Da mesma forma que João Antonio apresenta uma literatura rimada e ritmada, como fosse uma longa e extensa canção em homenagem ao trio de golpistas nas mesas de sinuca da Boca do Lixo em São Paulo, as canções do álbum contam uma história através dos bailes noturno de gafieira, samba e bolero.

O álbum 'Malagueta, Perus e Bacanaço' funciona como uma ópera paulistana, e a canção título abre a obra como uma Overture, Num samba jazz com um pé na gafieira. As canções 'Fome (Malagueta)', 'Nostalgia (Perus)' e 'Picardia (Bacanaço)' apresentam os personagens desta ópera da Boca do Lixo, mas também os definem, respectivamente. Daniel Ganjaman toca hammond nas duas últimas.

O rapper paulistano Ogi canta em 'Caso do Bacalao', composta em parceria com Kiko Dinucci, que ainda toca guitarra e percussão em 'Vila Alpina', que é cantada e composta por Rodrigo Campos, que ainda toca cavaquinho, guitarra e violão em outras faixas. A cantora Juçara Marçal canta em 'Na multidão', um samba moderno composto por Dinucci e Rômulo Fróes.

Compondo sobre temas da noite paulistana, França consegue te transportar pelo ambiente através dos movimentos 'São Paulo de noite' e 'Bolero de Marly', que representam uma jornada madrugada adentro, enquanto o 'Tema do Carne Frita' apresenta a figura do lendário jogador de sinuca paulistano.

'De volta à Lapa' encerra a tour pela noite da capital paulista com direito a visita na padaria da esquina, pela locução especial de Maurício Pereira. Além das participações já mencionadas, e de Thiago França nos saxs (alto, tenor e soprano), flauta e pocket piano, o disco também foi gravado por Anderson Quevedo no sax barítono, Amilcar Rodrigues no trompete e flughel, Didi Machado no trombone, Pimpa na bateria e percussão e Marcelo Cabral no baixo.

Um álbum feito como uma adaptação sonora da obra de João Antonio, 'Malagueta, Perus e Bacanaço'. Agora é só esperar o próximo script com a logomarca 'França S.A.'.

2013 Malagueta, Perus e Bacanaço

1. Malagueta, Perus e Bacanaço
2. Picardia (Bacanaço)
3. Caso do Bacalao
4. São Paulo de noite
5. Tema do Carne Frita
6. Nostalgia (Perus)
7. Na multidão
8. Bolero de Marly
9. Fome (Malagueta)
10. Vila Alpina
11. De volta à Lapa

domingo, 22 de dezembro de 2013

DE AMORES SONOROS E CASTELLO BRANCO

Cantor carioca estréia com álbum repleto de delicadeza com canções suaves de melodias singelas e belas. 



Castello Branco fazia parte da banda R.Sigma, mas com o encerramento do ciclo, lançou-se em processo de redescobrimento até criar o projeto solo que culminou neste disco, 'Serviço'.

Logo na abertura, Castello Branco versa sobre o crescimento em 'Cres-Sendo'. “Não há porque viver, senão pra crer e ser crescendo sendo. Não há porque amar, senão pra semear conhecimento", canta.

A partir de então o ouvinte está fisgado pela levada etérea e poesia passional. 'Necessidade' apresenta uma continuação no andamento, que encerra apenas em 'Tem mais que eu', como se formassem uma suíte de três movimentos. “Que se fosse assim, amor daria em pé de árvore”, encerra ele.

'Kdq' brinca com a língua portuquesa e o sotaque característico de outrora e agora muito utilizado como abreviações etc. Com participação de Gabriel Ventura na guitarra.

Participação especial da bela voz de Alice Caymmi em 'Palavra divina; Quietude extraordinária' e na linda canção 'As minhas mães'. 'Céu da boca' e 'Acautelar' formam uma suite de samba, com versões modernas de bossa nova e do samba-canção, respectivamente.

'Guerreiros' usa o 'Guarani', de Carlos Gomes, como música incidental, mas apresenta uma versão coral religioso versus indie-rock de lotar estádios inteiros.

O álbum foi produzido pelo próprio Castello Branco, acompanhado por Strausz, Tô e Lôu Caldeira. Com Tô e Castello Branco nos violões, Patrick Laplan no baixo e bateria, Tô e Strausz nas guitarras e Tadeu Campany na percussão.

Uma surpresa sensacional com canções recheadas de um verdadeiro sentimento de amor e compaixão, com uma áurea que transpõe a barreira sonora e invade o ambiente por inteiro.

2013 Serviço

1. Intro ave
2. Cres-Sendo
3. Necessidade
4. Tem mais que eu
5. Entreaberta
6. Kdq
7. Palavra divina; Quietude extraordinária
8. As minhas mães
9. Céu da boca
10. Acautelar
11. Guerreiros
12. Anu

domingo, 15 de dezembro de 2013

O PONTO DO TAMBOR E DA VOZ DE ULLY COSTA

Cantora paulista apresenta primeiro trabalho solo, após três álbuns cantando samba-rock com a banda 'Sandália de Prata'.


Ully Costa nasceu cantando. Desde pequena tem forte aptidão para música e demonstra esse talento em cada nota do álbum 'Quem sou Eu'.

A cantora já lançou três álbuns com a banda 'Sandália de Prata', mas é na estréia em carreira solo que ela se destaca. O novo álbum nasceu da vontade de regravar 'Quem sou eu' de Pedro 'Sorongo' Santos – do disco clássico 'Krishnanda' – e além de ter sido a primeira faixa a ser gravada, foi o nome do álbum da cantora.

Outras regravações permeiam o álbum, como o samba-jazz 'Capoeira de Oxalá', o jazz-indígena 'A querer', a balada soul 'Olhos dágua' e o samba 'Veja o meu lado'. Destaque para 'Festa do Rei Nagô' e 'O ponto' do compositor Jairo Cechin. 'Matrinheiro/ Iorá Édun' e 'Pindorama' encerram o repertório do disco.

Participações especiais de gente como o DJ KL Jay dos 'Racionais', Bruno Marques e Curumin nas baquetas, Pepe Cisneros, Marcelo Pretto e Leonardo Mendes, que foi produtor do álbum. 

Apesar de não ser estreante em gravações e espetáculos, Ully Costa pode ser considerada uma grata surpresa nas estréias do ano. Com voz e estilo único, ela entrega um trabalho maduro e sintonizado com o cenário atual. Com a palavra, a própria cantora...

Como foi que vc começou na música? De onde veio a faísca que te levou à musica?
Quando criança eu morava num pequeno sítio no Capão Redondo. Naquela época o bairro ainda era muito parecido com o interior de São Paulo. Havia no meu quintal um pé de abacate com um balanço onde eu passava muito tempo cantando o mais alto que podia. Na segunda série do primeiro grau tive uma professora chamada dona Vilma, em suas aulas tínhamos muito contato com boa música e ela sugeriu a minha mãe que eu deveria estudar algum instrumento e assim tudo começou...

Como fica o trabalho com a 'Sandália de Prata'?
Com o 'Sandália' vivi e vivo momentos inesquecíveis e aprendo muito com esse trabalho, sempre! Sinto que é possível continuar produzindo no 'Sandália' paralelamente à este novo trabalho.

Existe algum fio condutor no disco 'Quem sou Eu'?
Sou filha de sertanejo e fui criada com nordestinos, parte da minha adolescência estive muito envolvida com o samba e com o rock. Sou muito curiosa e da maneira como fui criada seria impossível ter pré-conceito sobre qualquer coisa. Eu não estou afirmando nada com esse disco e sim buscando. Pintei meu rosto e meu corpo na arte gráfica junto com a Prila Paiva (artista plástica) numa busca contemporânea dessa nossa ancestralidade, de quem se pinta para um ritual. A música pra mim é um ritual.

Como você vê a questão dos free-downloads?
Fundamental, mas prefiro ter o controle de como essa música vai ser baixada. Pelo menos estabelecer algum tipo de troca, onde se possa, por exemplo, saber o nome e o email de quem está baixando a minha música. Nem sempre é possível, mas me parece o certo. Quando vamos pra um estúdio gravar, buscamos fazer tudo com o melhor. Pra captar os tambores e manter a melhor sonoridade usamos os melhores microfones. Os melhores instrumentos,os músicos vem com o seu melhor. O trabalho tem uma arte toda pensada. Então, se for pra baixar, que seja com dignidade, rsrsrs...

2013 Quem sou Eu

1. A querer
2. Festa do Rei Nagô
3. Capoeira de Oxalá
4. O ponto
5. Olhos dágua
6. Veja meu lado
7. Marinheiro/ Iorá Édun
8. Pindorama
9. Quem sou eu

domingo, 8 de dezembro de 2013

OS METÁ MULHERES METÁ NEGRAS COM SABOR GUEMBÔ

'Os Mulheres Negras' se juntam ao 'Metá Metá' para apresentarem espetáculo antológico, magistral e intimista.
São Paulo, 18 de agosto do ano de 2013, no Casa de Francisca, dois gigantes se colidiram num espetáculo colossal.

São Paulo, 1988, os jovens paulistanos André Abujanra e Maurício Pereira, lançavam o primeiro álbum sob o nome 'Os Mulheres Negras' – 'Música e Ciência' – onde experimentavam samplers eletrônicos misturados às guitarras e saxofones da dupla, que ficou conhecida como “a terceira menor big-band da história”.

Depois de um segundo disco – 'Música Serve pra Isso' – a dupla 'Os Mulheres Negras' se separou com cada qual seguindo a própria carreira. Maurício gravou um disco solo – 'Na Tradição' – enquanto Abujanra formou o 'Karnak', com quem também gravou álbum. Ambos seguiram as carreiras sempre participando dos álbuns dos antigos parceiros e vez ou outra retomando a parceria em shows especiais da dupla.

São Paulo, 2011, o compositor e violonista, Kiko Dinucci, a cantora Juçara Marçal e o saxofonista e flautista Thiago França lançaram o resultado fonográfico da parceria entre eles, o trio 'Metá Metá'. O álbum foi um sucesso e abriu caminho para o segundo petardo – 'MetaL MetaL', que hoje incorporou novos integrantes – mas neste espetáculo aparece apenas como trio.

São Paulo, 2013, na Casa de Francisca, as duas bandas se uniram e realizaram um espetáculo, que poucos puderam prestigiar. Já há algum tempo que a dupla Abujanra e Pereira se apresentam numa espécie de revival d'Os Mulheres Negras' e como poderíamos esperar, duas bandas das mais legais e importantes de suas respectivas décadas se unificaram num duplo-trio-de-cinco, com a adesão dos integrantes do 'Metá Metá.

Considerando que os anos 80 foram cheios de inúmeras bandas legais, mas dentre todas elas a que continua atual e relevante nos dias de hoje é sem dúvida nenhuma 'Os Mulheres Negras', enquanto as outras se tornaram meros representantes do saudosismo à época. O 'Metá Metá' já é essa unanimidade por onde passa, mas apresenta fortes influências de Pereira e Abujanra. Nesse dia apresentaram um espetáculo com repertório mesclado de canções das duas bandas e dos quatro álbuns que lançaram.

Das canções d'Os Mulheres Negras', eles tocaram 'Só tetele', 'Orelhão', 'Purquá mecê?', 'Milho', 'Mãos coloridas' e 'Métodos Os Mulheres Negras para o ensino do skate na escola pública do terceiro mundo'. André Abujanra relembra a história de 'Guembô' e sugere que a junção das duas bandas deveria usar esse mesmo nome.

'Imbarueri' também era do repertório da dupla, mas foi gravada posteriormente por Maurício Pereira no disco solo 'Mergulhar na Surpresa'. 'Trovoa' também havia sido gravada por Pereira – no álbum 'Pra Marte' –, mas ficou mais conhecida na voz de Juçara Marçal, no primeiro disco 'Metá Metá'.

Também do 'Metá Metá', foram apresentadas as canções 'Cobra rasteira', 'Obá Iná', 'Obatalá', 'Oyá' e 'Ossanin'. 'Depressão periférica' também foi incluída no repertório, por se tratar de uma parceria entre Kiko Dinucci e Maurício Pereira, gravada no disco solo de Dinucci com vários cantores e parceiros – 'Na Boca dos Outros'.

A santa missa do velho modelo “faça-vocë-mesmo” tem neste registro, seu mais precioso cântico espiritual, com a soma das duas bandas mais atuantes nesse sentido. 'Os Metá Mulheres, Metá Negras' (apenas 'Guembô' – como prefere Abujanra) apresentam objetivos idênticos, mas separados por uma década de existência.

Com esse registro ao vivo, com qualidade da mesa de som, sem mixagem, sem cortes etc e tal, 'Os Mulheres Negras' se atualizam ao compartilharem as experiências com o 'Metá Metá' e compartilharem com todos ouvintes.

2013 Os Metá Negras Ao Vivo na Casa de Francisca

1. Mãos coloridas - Ossanin
2. Métodos Os Mulheres Negras para o ensino do skate na escola pública do terceiro mundo
3. Imbarueri
4. Depressão periférica
5. Cobra rasteira
6. Trovoa
7. Milho
8. Oyá
9. Só tetele
10. Guembô
11. Obatalá
12. Obá Iná
13. Orelhão
14. Purquá mecê?

domingo, 1 de dezembro de 2013

O GRANDE BARCO É DO TAMANHO DO MUNDO

Sids Oliveira ressurge com 'O Grande Barco' em álbum de poemúsica, onde ele apresenta influências de Walt Whitman, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, entre outros.  


Para falar d'O Grande Barco' é preciso antes estabelecer as motivações do personagem principal do projeto – o poeta Sids Oliveira.

A primeira incursão de Sids na área musical foi com a banda de punk-rock 'Pastel e Caldo de Cana', que manteve ao lado do colega Luiz Alfredo, hoje conhecido como Alfredo Bello, ou DJ Tudo. Depois cantou com a banda 'Maya Desnuda', que também tinha gente como Sergio Cepa, George Lacerda, Janaina Sabino, entre muitos outros. Quando a banda se separou, Sids continuou como duo junto com Cepa, apenas guitarra e voz, no que ficou conhecido como 'Poesia Oblíqua'.

Foi esse projeto que determinou o surgimento d'O Grande Barco', com bases eletrônicas e guitarra e voz. O lançamento do primeiro álbum aconteceu através de um livro de poesia musicada, ou como o próprio Sids prefere nomear de “Poemúsica” - 'Um Dedo de Prosa, Uma Mão de Poesia'. O disco, lançado em 2005, vinha encartado no livro e tinha diversas participações especiais, dentre elas a do guitarrista Sergio Cepa e do baixista e produtor musical Alfredo Bello, no que foi uma de suas primeiras incursões na área de produção.

Hoje, 'O Grande Barco' renasce na forma de álbum virtual, mas com a essência intacta de poesia musicada, ou como prefere Sids, “poemúsica”. Atualmente a banda conta com Davi Abreu nas programações e flauta, Leandro Morais nas guitarras e do próprio Sids Oliveira na voz e programações.

Neste novo álbum, Sids aprimora a sua fórmula de composição, criando uma poesia cada vez mais musicalizável. Com isso quero dizer que os poemas de Sids sempre foram muito musicais, desde a época da 'Maya Desnuda', mas atualmente nota-se a evolução da mensagem desse personagem.

'O Grande Barco' lançou, não apenas um disco de “poemúsica”, mas um álbum repleto de boas canções. Sids apresenta uma mistura homogênea de repente, xote, reggae, ciranda e diversos ritmos brasileiros com batidas eletrônicas e guitarra, flauta e voz.

Com isso, deixo a palavra com o próprio personagem desta história, o próprio Sids.

Houve um longo hiato entre o primeiro álbum e este segundo... O que você andou fazendo nesse tempo?
Fiz um segundo livro de poesia, 'VOOS' (a ser lançado) e um livro infantil 'Lili e o Dragão' (também a ser lançado). Participei do livro-coletânea 'Fincapé' (2011) do 'Coletivo de Poetas' daqui de Brasília e do DVD/CD do 'DJ Tudo e sua Gente de Todo Lugar' ao vivo no auditório do Ibirapuera, São Paulo (2011) do amigo e parceiro Alfredo Bello em sampa. A música 'Verdelinho' (do primeiro disco) foi remixada pelo DJ Tudo e lançada no CD 'Garrafada' (2008). Tem uma poesia de minha autoria no CD 'Sim One Sou' (2011), de Simone Sou, em russo e português. Também participei com voz e poesia, em duas faixas, no cd 'Projeto Cru' com Simone Sou, Alfredo Bello e Marcelo Monteiro em 2006 em São Paulo. Agora em 2013 minha poesia 'Tango 78', da época do 'Maya Desnuda', e que está no primeiro livro, fez parte da dramaturgia do espetáculo 'Infinito Vazio', da premiada 'Semente Cia de Teatro', do Gama. Fiz também um Laboratório de Poéticas no Espaço 'Semente'...

Qual é o ponto de partida de suas poesias?
Como podes conferir os temas são variados, assim como as linguagens... Em alguns casos fico intrigado com um verso, uma imagem, um acontecimento... em 'Tantinho do mundo', por exemplo, o verso "o sertão é do tamanho do mundo", de João Guimarães Rosa (martelou, no bom sentido, por meses em minha cabeça e ser), e daí saiu que "o Gama é um tantinho do mundo/ um risinho do fundo/ um chorinho profundo"... "é o que me leva e trás a você"... "quem Gama mora no Ama" (parafrase da famosa anônima "quem ama mora no Gama)...
Em outros casos eu brinco, como em 'Eu rio' que veio de uma poesia visual onde formo um rio com os dois versos que se seguem) "eu rio para a existência/ eu rio para a experiência".... daí fui brincando, rindo, seguindo... Já em 'Toque' entra, também, a sonoridade das palavras, o sutil, o singelo com brincadeira também...
'Célula' veio das pesquisas sobre célula tronco, sobre a possibilidade de seres humanos serem criados em "máquinas"...
'Elas na feira' nasceu da emoção transmitida pelas ceguinhas Maroca, Poroca e Indaiá... Elas, as ceguinhas, são maravilhosas como as milhares de mulheres de nosso Brasil (sugiro imagens de mulheres guerreiras na letra), como a minha mãe (agradecido mãezinha!!!).
Os processos são múltiplos.

Como foi o processo de gravação deste álbum?
Foi simples. Optamos por manter as bases/composições criadas a partir do Reason (programa eletrônico de edição de áudio), daí foram aplicados plugins e ajustes de timbres pelo Luiz Oliviéri, nosso produtor, e as músicas foram crescendo, singelamente, encorpando. As gravações foram feitas com poucos takes, praticamente diretas, e algumas sugestões foram aplicadas durante o processo, como em 'Toque, onde eu queria, sentia a necessidade, de que a música ficasse maior e ficou. As participações especiais foram pontuais com os meus amigos-irmãos Alfredo Bello e Marta Carvalho, em 'Elas na feira', e do Luiz Oliviéri, em 'Descalço'.

O primeiro disco foi feito como obra suplementar ao livro de poesias... Nesse segundo trabalho, você acredita que a situação se inverteu? ...que hoje as letras vêm em função da música...
Não. A diferença que vejo deste segundo álbum para o primeiro é que participo mais diretamente do processo musical, graças ao Reason.
No primeiro disco eu encaixava mais as letras nas músicas ou falava para os músicos a minha idéia musical que vinha a partir da letra, do seu ritmo, das suas cores... em alguns casos a idéia era só de vozes.
Bom, o processo criativo em si é bem parecido entre os dois discos, ou seja, não existe um caminho definido. Por exemplo em 'Descalço' eu já tinha as duas letras (e a idéia da "levada" delas), daí comecei a brincar com o Reason e encaixei as letras e melodia na base/composição, daí o Davi também brincou com o Reason e criou a melodia da flauta, um synth e o baixo da parte do "paranoá". Em 'Célula' o Davi chegou com a música pronta e eu fui brincando com a letra, juntei duas idéias que estavam esperando a música. Já em 'O capoeira' o Davi trouxe a primeira parte da música, com influencia da música eletroacústica, e encaixei a letra com o jogo de capoeira, mas, intrigado, achando que podia mais, eu acrescentei bateria, percussão e outros elementos eletrônicos como guitarra... Daí fui brincando com a letra e chamei o Chico Science e o João Cabral de Melo Neto, em memória... Se reparares nela, na composição, verás que damos um rolê por Recife e Olinda, em companhia mais que poética, com o Chico e o João Cabral.
A música por vezes chama a letra, mas a letra também chama música. Gosto disso.

Qual é sua posição sobre esse assunto de livre compartilhamento? Acessibilidade ou pirataria?
Disponibilizamos este segundo álbum como o primeiro também... Acessibilidade!!!
Mas respeito os artistas que querem ganhar o seu por meio do seu trabalho, o lance é que esse processo da disponibilidade de bens é um caminho sem volta, creio. Assim seja!
Pra completar, na segunda metade dos anos oitenta vivenciei o "faça você mesmo" e vejo essa disponibilidade toda como uma consequência disso, ou seja, faça e deixe fazer, compartilhe, compartilhe-se. Eu Ovo!!!

2013 O Grande Barco

1. Toque
2. Eu rio
3. Descalço
4. Tantinho do mundo
5. Fênix
6. Célula
7. Elas na feira
8. O capoeira
9. Ciranda de ciranda

domingo, 24 de novembro de 2013

SAMBANDO DE MANSINHO AO SOM DE LUCIANA OLIVEIRA

Cantora brasiliense, Luciana Oliveira, apresenta segundo disco com maturidade e sobriedade nos arranjos e composições. 



'Pura' é o título do segundo álbum da cantora Luciana Oliveira, com composições próprias e algumas parcerias no meio do caminho. A produção ficou a cargo de Alê Siqueira e arranjos e participações de Mikael Mutti e Adson Santana.

O álbum abre com a faixa título, de autoria de Eduardo Brechó, que é parceiro de Luciana na próxima canção, 'Condicionada', com participação de Elza Soares e das teclas psicodélicas de Mikael. A partir deste ponto o ouvinte está completamente fisgado e inebriado pelo som gostoso da voz da cantora e pelas suas belas composições.

'Aroeira' é uma belo exemplar de canção autoral, que bem reflete o estilo da cantora, ao misturar o batuque brasileiro com batidas eletrônicas. Seguida por 'Samba em pliet' com uma gostosa levada axé. 'O mundo estava em guerra mas aqui era carnaval' foi composta por Alexandre Carlo, do Natiruts, especialmente para Luciana gravá-la na mesma pegada “made in Bahia”.

'Fé menina' trás um groove funekado ao álbum, com baixo de Arthur Maia e percussão de pneus de Peu Meurray. O ritmo se mantém em 'Menina Guiné' composta em parceria de João Ferreira. 'Cio das águas' foi composta por Lucas Cirilo e Téo Garfunkel, seguida pelo clássico de Caymmi e Amado, 'Retirantes', com participação de Mateus Aleluia ('Tincoãs'), Gabi Mendes ('Orquestra Rumpilez') e das 'Ganhadeiras de Itapoã'.

O álbum encerra com 'Flor e Flora', gravada com João Ferreira no violão. Um disco suingado e bem balançado, com delicadeza ímpar e arranjos singelos. Pra ouvir e sambar de leve e juntinho.

2013 Pura

1. Pura
2. Condicionada
3. Aroeira
4. Samba em pliet
5. O mundo estava em guerra mas aqui era carnaval
6. Fé menina
7. Menina Guiné
8. Cio das águas
9. Retirantes
10. Flor e Flora

domingo, 17 de novembro de 2013

A ESPETACULAR CHARANGA DO THIAGO FRANÇA

Thiago França ataca novamente com um disco digital, apresentando e misturando ritmos latinos como cumbia, maxixe e ragga.


'A Espetacular Charanga do França Ataca Nocamente' é o nome do álbum. Um disco com esse nome tem que ser muito bom. Porém – e sempre tem um – são apenas quatro músicas... Em compensação, são quatro belas canções!   

Enfim... Esse França é o próprio selo de qualidade de música boa paulistana. Se tem o França! Pode crer que é bom. Seja 'MarginalS', 'Sambanzo', 'Duas Sessões', 'Metá Metá' e em projetos com Dona Inah, Rodrigo Campos ou Criolo. Sem menosprezar outros paulistanos, apenas para deixar claro que se tem o dedo – ou o  beiço – do França existem grandes possibilidades do som ser instigante e inventivo. 

O álbum abre com 'Hasta la cumbia', que o nome entrega todo o estilo, mas com o nome de extrema beleza plástica fica impossível não cantarolar a melodia e balançar os pés, braços, quadris etc. Continue de pé para bailar 'Cumbia cumbia' na sequência.

O lado B do compacto, começa com a mistura inspirada de ragga com maxixe, 'Raggaxixe'. Seguida pela também inspirada 'Pedra do rei', que encerra o petardo com paticipação na bateria de Tony Gordin e Wellington Pimpa Moreira, que também toca percussão.

Todas as faixas foram compostas e arranjadas pelo França, com o próprio tocando saxofone alto, acompanhado de Anderson Quevedo no saxofone barítono, Amilcar Rodrigues no trompete, Didi Machado no trombone e Samba Sam no surdo.

Como uma amostra espetacular, Thiago deixa no ar a possibilidade de um 'Retorno da Espetacular Charanga do França' num futuro bem próximo. Oxalá soprem ventos que entoem em únissono com os sopros que aqui partem!

2013 A Espetacular Charanga do França Ataca Novamente

1. Hasta la cumbia
2. Cumbia cumbia
3. Raggaxixe
4. Pedra do rei

domingo, 10 de novembro de 2013

O BAILE DANÇANTE DO BIXIGA 70

'Bixiga 70' faz alusão a um dos mais famosos bairros da capital paulista e aos timbres e sonoridade almejada pelos integrantes da banda.  


O 'Bixiga 70' apresenta, em seu segundo álbum, uma incursão ao legítimo batuque paulistano de raízes africanas. A intenção foi resgatar a sonoridade dos anos 70 ao misturar o samba de terreiro com o afrobeat nigeriano de Tony Allen e Fela Kuti.

Já na faixa de abertura eles reinterpretam o clássico dos 'Tincoãs' de Mateus, Dadinho e Heraldo, que já haviam adaptado tema comum de domínio público, 'Deixa a gira girar', e encurtam a distancia entre Bahia e Nigéria.

'Ocupai' parece oportuna no momento atual e segue apresentando um afrobeat embriagado com o teclado de Maurício Fleury, que prepara a cama para os sopros de Cuca Ferreira (barítono), Daniel Nogueira (tenor), Douglas Antunes (trombone) e Daniel Gralha (trompete).

Em tempos de invasão paraense, a banda mostra uma cumbia em 'Kalimba', canção recheada de balanço, suingue e merengue. '5 esquinas' é um afrobeat característico com marcação cerrada daateria de Décio 7 e a guitarra espacial de Cris Scabello.

Em 'Kryptonita' a banda acelera as batidas pelas percurssões de Rômulo Nardes e Gustavo Cék, seguida pelo groove belo e melódico da faixa 'Tigre'. 'Tangará' é uma exaltação percurssiva, que infelizmente ficou de fora do vinil.

Quando chegares na audição de 'Retirantes', já estará completamente inebriado pelo climático e catártico som do 'Bixiga 70'. A última canção do álbum dá-se com 'Isa', bela composição do baixista Marcelo Dworeki, que funciona como um maravilhoso ponto final.

Um encerramento épico, a altura do disco, ao mesmo tempo acalmando os nervos e deixando um gosto de quero mais. Deixando no ouvinte a clara vontade de pedir um repeteco. Eu ovo de novo. E você?

2013 Bixiga 70

1. Deixa a gira girar
2. Ocupai
3. Kalimba
4. 5 esquinas
5. Kryptonita
6. Tigre
7. Tangará
8. Retirantes
9. Isa

domingo, 3 de novembro de 2013

OUSA TUDO O QUE QUER SER VERLINDO

Projeto Verlindo apresenta um som cheio de bossa, samba, choro, batidas eletrônicas, belas melodias e climas espaciais e toda galáxia. 


Jorge Verlindo criou um universo particular cheio de belas melodias, através da arte conceitual de Nelson Cordeiro – a criança nas costas de uma tartaruga gigante, que como nos mitos antigos, carrega o universo em cima do casco – no álbum 'Ousa'.

Jorge juntou-se a Rafa Dornelles para arranjar e dar vida as canções compostas por Verlindo, com belas melodias pontuadas por efeitos, batidas e climas, que permeiam toda obra produzida por Tomás Seferin (que forma o Sacassaia junto com Gabriel Reis).

A faixa de abertura é 'Outro lamento', um sambinha bossa nova, que ressalta o dueto em vocalize de Verlindo com Renata Jambeiro. 'Ponto cego' se afasta do rótulo bossa nova ao se aproximar do lounge, mas segue a trajetória melódica do banquinho, voz e violão do cantor.

Em 'Bonita', Verlindo acrescenta um suingue, seguindo a mesma linha das canções anteiores. 'Esse teu choro' trás Xande Bursztyn (dos Móveis Coloniais de Acaju) no trombone, formando uma cama perfeita para o violão cadenciado e o baixo harmonioso de Rafa Dornelles (co-produtor do disco).

'No compasso da espera' é uma perfeita mistura das batidas eletrônicas com o violão melódico de Verlindo. “Devo adimitir” comenta a letra de 'Tudo bem', mas cabe a mim ressaltar que essa mistura bossa lounge, soa muito melhor que as intervenções 'Pafite', 'Da Lua', Bebel Gilberto, entre outras.

A faixa título, 'Ousa', carrega uma batida forte e suave ao mesmo tempo, que culmina num clímax atmosférico espacial. 'Passado' é um chorinho elegante e eletrônico de barulhinhos espaciais e vocais de Sônia Bonna (que também canta em 'Ponto cego', 'Esse teu choro' e 'Espero teu corpo').

O álbum encerra com 'Grande passeio' e 'Tudigual', duas baladas melódicas recheadas de barulinhos bons e que encerram uma ópera alegre. Uma obra que representa o universo e tudo que está contido nele, todos sentimentos, medos, alegrias, tristezas, enfim... E tudo mais...

Atualmente, Verlindo virou projeto com o próprio Jorge na voz e violão, Rafa Dornelles na guitarra, Arthur Lobo no baixo e Walter Cruz nos teclados e sintetizadores e mpc e com essa formação a banda têm se apresentado ao vivo. 

2013 Ousa

1. Outro lamento
2. Ponto cego
3. Bonita
4. Esse teu choro
5. Compasso da espera
6. Tudo bem
7. Ousa
8. Passado
9. Espero teu corpo
10. Grande passeio
11. Tudigual

domingo, 27 de outubro de 2013

UM BLUSH DE TAPA NA ORELHA, DOS CEREBRAIS ANCESTRAIS

Banda 'Cérebro Eletrônico' lança álbum inspirado em momento singular e reforça o teor psicodélico e místico da própria discografia.


O som da banda 'Cérebro Eletrônico' é diferente de toda psicodelia dos outros representantes deste estilo musical. Eles conseguem fazer canções extremamente populares e experimentais, recheadas de efeitos e barulhinhos característicos do consumo de psicotrópicos.

A banda segue a mesma trajetória cronológica e coerente, que pode ser conferida desde o primeiro álbum, 'Onda Híbrida Ressonante' – apenas com as guitarras de Tatá Aeroplano e Fernando Maranho – no segundo 'Pareço Moderno' – com novos integrantes: Dudu Tsuda nos teclados, Isidoro Cobra no baixo e Gustavo Souza na bateria (que permanece na banda até hoje) – e em 'Deus e o Diabo no Liquidificador' – com Fernando TRZ nos teclados e Renato Cortez no baixo.

Neste álbum, 'Vamos pro Quarto', os cinco integrantes fizeram um retiro no recanto rural de 'Mestre Piu', nas montanhas de Bragança paulista. Foram três dias de muita chuva, muito tédio, brincadeiras e sons. Desse período surgiram as nove canções que compõe o disco, que funciona da mesma forma que a discografia da banda. É um petardo sonoro, que segue uma linha melódica, como fosse uma psico-ópera.

Tudo começa de maneira bucólica em 'Um brinde aos pássaros', canção rural bem-humorada que enaltece a cachaça e os apreciadores da bebida. 'Seus papos não colam' segue uma linha evolutiva e rítimica com a faixa anterior, e também explode num final crescente e apoteótico. O álbum segue num contínuo movimento rítimico crescente, comprovado na faixa seguinte, 'Não bateu', canção com letra envolvente e cheia de referências e influências – das gírias, outras canções ao cancioneiro francês.

'Oh! My Lou' é um interlúdio com letra em inglês e um suave toque psicodélico no solo da guitarra de Maranho. 'Libertem os Faunos' é uma “ópera lúdica” e lírica, seguida por 'Tristeza retrô' funcionando como um epílogo perfeito de extrema histeria. O disco segue com 'Canibais ancestrais', uma canção popular de simples luxúria.

'Egyptian birinights' é um mantra no melhor estilo psicodélico dos anos 60. Segue a narrativa de 'A internet parou', canção que encerra o álbum de forma catártica e hipnótica. Há ainda uma faixa escondida, 'No quartinho', que é uma colagem de levadas e climas diferentes, numa compilação de takes (ou ideias) não utilizados – na velocidade de um controle-remoto.

'Vamos pro Quarto' é um disco para se aproximar aos poucos e deixar-se levar suavemente pela caudalosa psicodelia da banda 'Cérebro Eletrônico'. Um novo clássico da música brasileira. Uma obra para ouvir sempre na sequência – inúmeras vezes... 

Em tempo, a capa é do 'Jardim de Delícias', do Bosch – e reflete bem o clima do álbum... 

2013 Vamos pro Quarto

1. Um brinde aos pássaros
2. Seus papos não colam
3. Não bateu
4. Oh! My Lou
5. Libertem os Faunos
6. Tristeza retrô
7. Canibais ancestrais
8. Egyptian birinights
9. A internet parou
10. No quartinho (hidden track)

sábado, 19 de outubro de 2013

OS HERDEIROS DA LOUCURA DE BAGGIO

Dupla sergipana mescla o sotaque nordestino com um paredão sonoro de rock'n'roll repleto de efeitos e peso.


'The Baggios' é uma dupla roqueira do estado de Sergipe, com Julio Andrade nos vocais e guitarras e Gabriel Carvalho na bateria – mas esse posto já foi ocupado por Lucas Goo (que foi estudar na Suiça) e Elvis Boamorte (que hoje tem o projeto 'Elvis Boamorte e os Boas Vidas').

O som dos caras é uma mistura de referências e influências do cenário do rock'n'roll atual – como as bandas 'The White Stripes', 'The Black Keys' etc – e nomes da música brasileira, como Raul Seixas, Zé Rodrix, Alceu Valença, Zé Ramalho etc. Tudo isso devidamente mesclado, Julio e Gabriel criam uma sonoridade única e ímpar com sotaque brasileiro.

O recém-lançado álbum, 'Sina', é prova de maturidade da dupla, que consegue apresentar um quebra-cabeças sonoro maciço e pesado, com letras evidênciando experiências cotidiana, simples dúvidas, gírias locais ou provérbios populares.

Além da dupla, gravando guitarra, vocais, bateria, pandeirola, maracas e queixada, o disco tem participações especiais de Pedrinho Mendonça na percussão em 'Afro', Rafael Ramos no órgão em 'Tardes amenas', Vitor Bigjohn na sanfona e Fabio Snoozer no contrabaixo acústico em 'Salomé me disse', Mário Augusto no saxofone e André Lima no trompete em 'Vagabundo arrependido' e 'Esturra Leão', que também tem as vozes de Daniel Torres, Arthur Matos e Renata Abreu – que também cantam em 'Domingo'.

Destaque para canções como 'Blues do aperreio', 'Sem Condição', 'Sina', 'Um rock para Zorrão', 'De malas prontas' e 'Descalço'. Enfim.... Para todo o disco.... A dupla Julio Andrade e Gabriel Carvalho apresentam um paredão sonoro chamado 'The Baggios', inspirado no músico andarilho conhecido apenas como Baggio, na cidade sergipana de São Cristovão - ver vídeos ao lado.

Um som que merece ser conhecido e apreciado pelo amante do bom e velho rock'n'roll.

2013 Sina

1. Afro
2. Blues do aperreio
3. Sem condição
4. Salomé me disse
5. Sina
6. Esturra Leão
7. Vagabundo arrependido
8. Um rock para Zorrão
9. De malas prontas
10. Domingo
11. Tardes amenas
12. Descalço

domingo, 13 de outubro de 2013

COM VOCÊ EU TÔ SEGURO PRA VIVER O QUE VIER

Marcela Vale lança novo compacto sob a alcunha de Mahmundi, e acrescenta música eletrônica no cancioneiro brasileiro. 



Mahmundi já é nome conhecido da casa e pertence ao novo time de jovens artistas da música brasileira, desde o lançamento do EP 'Efeito das Cores' em 2012.

Neste novo lançamento, Mahmundi apresenta um som mais intimista e delicado, que permeia todo o EP 'Setembro'. São ecos de James Blake, Bjork, 'Boards of Canada', entre tantas outras referências da música eletrônica atual. Ela faz um lounge com clima carioca do 'Arpoador'.

Um álbum que pode ser um 'Prelúdio' ao anterior ('Efeito das Cores'). Mahmundi consegue, 'Quase sem querer', se enquadrar num time de grandes nomes da cena eletrônica atual. Com o parceiro Lucas Paiva, ela cria um clima 'Leve' e sensual usando synths, drummachines, baixo synths, samples, loops, efeitos, bateria e guitarra.

'Setembro' é um livro musical de Mahmundi, onde ela conta a vida dos outros e abre o próprio peito e expõe-se aos sentidos dos ouvintes.

'Vem' sentir o coração batendo forte com as batidas e letras da canções de Mahmundi.

2013 Setembro EP

1. Vem {Selah}
2. Prelúdio
3. Quase sem querer
4. Arpoador
5. Setembro
6. Leve


domingo, 6 de outubro de 2013

UM PASSEIO NO MUSEU DE SOM DO BONIFRATE

Uma viagem psicodélica ao rock lunar pós-rural de um estrambólico Bonifrate e seu incrível vôo de Margaridas.


Bonifrate apresenta seu novo álbum, 'Museu de Arte Moderna`, como um passeio entre suas próprias canções. Todas elas devidamente expostas para apreciação no encarte de concreto que são todos Museus.

Então estendam os braços para fora do trem e sintam e toquem e ouçam tudo que quiserem neste lúgubre passeio ao 'Museu de Arte Moderna' de Bonifrate. Nessa visita, você vai perceber que o cantor adicionou novos elementos à sua música, como saxofone – criando assim, uma nova paleta de cor nas telas oníricas – por cima das pinceladas tradicionais de guitarra, violão, gaita, teclado, baixo e bateria.

Adentrando no salão, você encontra o 'Homem ao mar', seguida pela alegre 'Allegro! Allegro!', um rock pós-rural cheio de energia e bela lírica bucólica. 'Horizonte mudo' é um reggae com toques psicodélicos e leva o ouvinte à sala de antigas influências. Ainda no percurso da memória está 'Revoluções', com orquestração imaginária do quinto “beasouro”, seguida pela beleza crua de 'Soneto estrambólico', com as belas cenas criadas por Bonifrate, cheias de hélio e neon.

Interlúdio, 'Garbino' – serve para separar as alas do 'Museu de Arte Moderna'.

'Eu não vejo Teenage Fanclub nos teus olhos', tem todas as características de uma legítima canção “Bonifratiana”, mas funciona também para encher toda a cidade de musgo. Seguida pela faixa título, 'Museu de Arte Moderna', e pela intrumental 'Guaianá Mainline', resgatando a beleza rural “caipírica”. 'Paralaxe' encerra a visita ao salão do paredão de som, criado por Bonifrate e Banda.

'Aracati' funciona como introdução para 'Sabe da última', canção que representa o caldeirão de referências de Bonifrate, de suas aspirações e pirações etc e tal. 'Zéfiro' é um breve intervalo, apenas para permitir o ouvinte a tranquilidade para apreciar o encerramento do passeio em 'Canção de pelúcia', um convite a quietude existêncial.

Se no trabalho anterior, Bonifrate convidada o ouvinte a arrancar pedaços de si mesmo – na forma de ouvir suas canções – nesse álbum, 'Museu de Arte Moderna', o cantor expõe esses pedaços de alma – em forma de canções – numa coleção de peças de um quebra-cabeças psicoacústico.

2013 Museu de Arte Moderna

1. Homem ao mar
2. Allegro! Allegro!
3. Horisonte mudo
4. Revoluções
5. Soneto estrambólico
6. Garbino
7. Eu não vejo Teenage Fanclub nos teus olhos
8. Museu de Arte Moderna
9. Guaianá Mainline
10. Paralaxe
11. Aracati
12. Sabe da última
13. Zéfiro
14. Canção de pelúcia

domingo, 29 de setembro de 2013

COM QUANTAS CABEÇAS SE FAZ UMA ORQUESTRA?

O que antes era 'Coutto Orchestra de Cabeça' virou apenas 'Coutto Orchestra', para apresentar o álbum de estréia, 'Eletro FUN Farra', cheio de novidades sonoras.



A banda surgiu da cabeça de Alisson Coutto, por causa dos samples e das peças fundamentais que foram se encaixando e orbitando ao redor – como Rafael Ramos (baixo e teclados), Fabinho Espinhaço (bateria) e Vinícius Bigjohn (acordeon e teclados), que junto a Alisson (trombone e samples) formam a 'Coutto Orchestra'.

O som que eles fazem mistura elementos da música latina com a do nordeste e inclui as batidas eletrônicas nesse mesmo caldeirão. O novo álbum, 'Eletro FUN Farra' foi recém-lançado e chega como uma procissão, romaria, bloco ou cortejo.

Que abre com 'Ladeira', funcionando como uma overture ou introdução ao percurso que a banda apresenta. 'Corre' vem em seguida puxando o cordão de foliões, que ainda não haviam aderido às batidas.

Depois seguem as canções com nomes de mulheres; 'Forbelle', um xote dos balcãs; 'Cordélia', um tango sensorial; 'Juanita', uma cumbia espacial; 'Flor', de volta ao leste europeu e 'Loretta e Boutique', uma milonga em xaxado.

'Routine' tem uma bela melodia para deixar qualquer um assobiando. Os barulhinhos ao fundo intrigam mais que perturbam e demonstram claramente, que a vida é cheia de ruídos sonoros.

'Quadrinharia' segue a mesma linha milongueira com xaxado e serve para dar passagem ao encerramento do 'Eletro FUN Farra', como fosse mesmo um bloco de rua, com a oração a 'Dorival Caymmi'.

Alisson Coutto conversou comigo por e-mail e respondeu algumas questões primordiais para sabermos quem é ele e o que pretende daqui pra frente.


De onde surgiu a ideia para a 'Orchestra de Cabeça'?

A 'Orchestra de Cabeça' surge no momento em que não possuia banda, apenas eu (Alisson Coutto) produzia as músicas em estúdio e junto com aparatos eletrônicos construía minha banda, minha 'Orchestra de Cabeça'.

Hoje somos um quarteto, e ao lançar o 'Eletro FUN' Farra decidimos retirar o nome “de Cabeça” e assumirmos apenas o nome 'Coutto Orchestra', pois vimos mais que nunca conseguimos sair de um projeto imaginário, hoje nos identificamos como banda, montamos nossa micro-big-band, nossa pequena Orquestra.

Como surgem as canções? O que vem primeiro, o ritmo ou a melodia?

As canções sempre surgem a partir de algum estimulo visual ou histórias que ouvimos em relatos, que se transformam muitas vezes em trilhas sonoras, outras, em canções quase sem palavras. Geralmente o conto vem antes da melodia, e quase sempre por último, mas não menos importante, o ritmo.

Nas composições da 'Orchestra' sempre buscamos fundir elementos daqui (nordestinos e prioritáriamente sergipanos) com os demais ritmos da aldeia global. Ao compor não nos preocupamos em seguir uma forma ou rítmica obrigatória, o que buscamos a risca é apenas comunicar sensações imagéticas por meio de quase nada, geralmente expressadas em melodias curtas e repetitivas em um caldeirão sonoro. A silhueta no lugar da imagem.

Vocês participaram de vários festivais e feiras musicais... Como foi a experiência?

A cada evento que temos a oportunidade de viajar, a banda consegue se renovar, oxigenar a pluralidade que buscamos no nosso som, é impressionante como em nossas viagens conseguimos (re)avaliar os elementos estéticos, sonoros, que compõem o nosso trabalho.

De onde veio o investimento para gravar os EPs? ...e este álbum? 

O investimento para este disco e os anteriores partem de recursos próprios. Através dos cachês, venda de discos, dentre outros produtos geramos os recursos para a produção do nosso material de trabalho.


Como vocês lidam com os downloads gratuitos?

Para nós que somos uma banda ainda pouco conhecida, o download gratuito é algo muito positivo e porque não dizer necessário. Disponiblizar gratuitamente para que as pessoas conheçam nosso trabalho é uma das nossas principais ferramentas de promoção que temos.

Vivemos em um local fora dos grandes circuitos e na medida que conseguimos propagar nosso som para uma quantidade mais ampla de pessoas (e isso o download gratuito permite bem) facilita nossa circulação.

Apesar de disponibilizarmos de forma gratuita para download, as pessoas sempre compram muitos discos nos shows que realizamos, isso nos faz acreditar que disponibilizar o disco para download funciona muito mais como um bom “cartão de visita” , ele ajuda a impulsionar nosso trabalho.

Vejo fortes influencias de ritmos latinos... Quem mais influenciou vocês?

Nós como músicos tivemos a oportunidade de tocar individualmente em bandas dos mais diversos estilos, o que nos possibilitou uma boa vivência e a oportunidade de apreciarmos a música global de forma ampla, especialmente a música latina.

O folclore sergipano, o forró e ritmos latinos como o tango e a cumbia, são elementos presentes em grande parte das composições do 'Eletro FUN Farra', entretanto, não fazemos esforços para que esta valorização local soe aparente, ela vem de forma natural orgânica, não há intenção de preservação, bandeira ou até mesmo resgate desta latinidade. Somos latinos de ouvidos e olhos abertos aos sons e rumores do mapa global. Isso é o que buscamos e nos influencia cada vez mais.

Quais são os planos da banda?

Após o lançamento do disco, estaremos entrando na turnê 'Eletro FUN Farra' e na produção do nosso primeiro video-clipe.

A turnê começa a partir do dia 18 de outubro, quando lançamos nosso disco em formato físico, na cidade de Aracaju e partimos inicialmente para shows em Brasília (DF), Macapá (AP), Olinda (PE) e demais regiões do Nordeste.

2013 Eletro FUN Farra

1. Ladeira
2. Corre
3. Forbelle
4. Cordélia
5. Juanita
6. Flor
7. Routine
8. Loretta e Boutique
9. Quadrinharia
10. Dorival Caymmi



domingo, 22 de setembro de 2013

EU TENHO FÉ NAS GAROTAS SUECAS

Depois de uma estréia bem sucedida, a banda 'Garotas Suecas' apresenta outra obra recheada de groove, peso e maturidade.


A banda 'Garotas Suecas' não é formada por meninas do país escandinavo, muito menos somente por pessoas do sexo feminino, aliás só tem uma mulher na formação. Irina Bertolucci nos teclados e vocais, que é acompanhada por Guilherme Sal nos vocais, Fernando Freire no baixo, Nico Paolielo na bateria, e Tomaz Paolielo na guitarra.

Com essa formação, a banda ainda conta com o auxilio luxuoso de Maheus Prado nas percussões, Anderson Quevedo no sax barítono, Daniel Nogueira no sax tenor – ambos também tocam flauta – , Jaziel Gomes no trombone e Paulinho Viveiro no trompete, sem falar no trio de cordas formado por Fabio Tagliaferri na viola, Otávio Teco no violino e Mário Manga no violoncelo.

O disco abre com 'Manchetes da solidão`, uma balada popular com letra sofisticada e final apoteótico. Com letra em inglês, 'New country' apresenta uma crônica de uma realidade utópica, que serve para aplicar o ouvinte no groove que permeia todo o álbum. 'Bucolimo' segue de leve com o balanço soul e levada meio reggae, numa canção pós-rural.

A sequência da narrativa da banda nos leva ao retrato de um momento qualquer em 'Pode acontecer', com participação do próprio produtor do disco, Nick Graham-Smith no teremim. 'L.A. Disco' leva o ouvinte ao cenário “black music” do final dos anos 70, com o moog de Mauricio Orsoloni e participação de Kid Congo Powers. “Mas eu tenho fé” diz a letra pontuada pela guitarra característica do funk norte-americano.

'Eu vou sorrir pra quem é gente boa' rema nas boas energias de todas cabeças abertas e loucas o suficientes para curtirem o jazz de Thelonius Monk. 'A Nuvem' traz a participação de Lurdez da Luz e resume o intuito de todo álbum, com suas 'Feras Míticas' e soberanas – também ganhou clipe psicodélico. Outra letra em inglês, 'St. Mark`s theme' assume a porção rural-psicodélica cheia de boas vibrações da banda.

'Bicho' é mais uma canção pra bailar no salão e suingar deslizando os pés no chão, que remete à alegria pós-tropicalista na música brasileira. Paulo Miklos participa de 'Charles Chacal', canção sobre o terrorista Carlos Chacal do repertório dos Titãs pré-'Cabeça Dinossauro'. 'Roots are for trees' explana sobre o famoso e consagrado botão do “foda-se”.

'O primeiro dia' encerra o álbum com a balada rústica de alto astral, com outra participação de Graham na guitarra slide. 'Garotas Suecas' apresenta um forte petardo musical, com alta possibilidade de figurar entre os melhores do ano.

2013 Feras Míticas

1. Manchetes da solidão
2. New country
3. Bucolismo
4. Pode acontecer
5. L.A. Disco
6. Eu vou sorrir pra quem é gente boa
7. A Nuvem
8. St. Mark`s theme
9. Bicho
10. Charles Chacal
11. Roots are for trees
12. O primeiro dia

domingo, 15 de setembro de 2013

TEMPO ILUSÃO DE RODRIGO BEZERRA

Jovem guitarrista e produtor apresenta álbum cheio de grandes canções e interpretações próprias, que vão do jazz ao samba.  


Rodrigo Bezerra é o produtor e diretor artístico do álbum de estréia de Ellen Oléria, 'Peça' de 2009, além de tocar guitarra nas apresentações ao vivo. Bezerra sempre deu mostras de enorme talento ao simplesmente deixar brilhar e florecer a cantora, que hoje é unanimidade nacional. Reza a lenda que o bom guitarrista no jazz é aquele que não aparece, mas quando deixa de tocar todos sentem sua falta. Rodrigo rezava a cartilha com maestria, enquanto acompanhava Ellen, mas agora aparece como um furacão no seu segundo álbum solo, 'Tempo Ilusão', o primeiro no qual também canta.

Uma estréia pungente e singela num disco de rara beleza, que não é apenas uma obra de jazz, mas um compêndio de belas composições, orquestradas com maestria por Rodrigo Bezerra, que apresenta canções autorais, num disco sóbrio e maduro, que abre com a faixa título. 'Tempo ilusão', um jazz-fusion com tempero brasileiro, com solo de guitarra de Pedro Martins. 'Circular' traz o violão de Bezerra pontuando o ritmo, quebrado apenas pelo solo de teclado de Felipe Viegas, que participa de todas canções.

O dedilhado delicado do violão de Bezerra evoca esperança em 'Esperar' pelo amanhecer, pelo novo amor, por mais sorte, por mais força e por todas aquelas utras pequenas coisas que devemos todos esperar. 'A criança' segue a mesma linha melódica da faixa anterior. 'Além de acordes' é um samba-jazz pontuado pelas baquetas de Renato Galvão e trompete de Westonny Rodrigues, com letra e vocais de Ana Reis.

'Trilhos' é uma canção suave e delicada, que segue crescendo até o final. 'Bandeiras, pra quê?' traz participação de Bruno Patrício na flauta – que também toca saxofone em outras faixas – e reflete sobre as questões de fronteiras universais. 'O homem formiga' segue marchando na melodia intimista, seguida pela balada do violão de Bezerra e do piano de Viegas, 'Mais é menos'.

'Celebrar' encerra o álbum em alto astral com os sopros de Rodrigues e Patrício, a bateria de Galvão, teclados de Viegas, sem falar no violão, guitarra e voz de Rodrigo Bezerra. Uma estréia grandiosa para um jovem cantor, que já tem muita experiência como guitarrista, arranjador e produtor.

2013 Tempo Ilusão

1. Tempo ilusão
2. Circular
3. Esperar
4. A criança
5. Além de acordes
6. Trilhos
7. Bandeiras, pra quê?
8. O homem formiga
9. Mais é menos
10. Celebrar