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9.26.2010

OLHA O PAPO DO BICHO QUE ELE DÁ

O disco do Vavá é uma britadeira semântica poetética de influências que se confundem entre si, dó, cá e lá. Se no primeiro álbum, a preocupação era demonstrar essas influências pelos arranjos e orquestrações estudiólogas, nesse segundo exemplar a idéia é a mesma, mas com enfoque nas linhas das palavras escritas.

Os arranjos de Vavá e sua banda, o Toró de Palpite, permitem-se a poucas participações especiais. Com a banda enxuta, um power-trio de responsa – baixo e voz do próprio Vavá, guitarra do João Ferreira e bateria do Tiago Cunha (o Leander Motta tocou bateria em quase todas as faixas e o Barata em algumas outras) – apresenta idéias desde “O começo” do homem em “O trono” à uma visita ao dentista em “Da cárie”.

O disco abre com uma levada groove com Vavá cantando um pé-na-bunda amoroso, que se transforma numa explosão de riff roqueiro e matador, com legítimo sotaque brasiliense. Mas porque diabos o nome da canção foi “Macarrão com molho”? Esse é o Vavá. Desse jeito mesmo. Às vezes prolixo, reverente e referente, mas na maioria do tempo curto e grosso.

A faixa seguinte, “O sistema é bruto”, é um reggae dub-style com a voz da Indiana Nomma, descrevendo o mesmo pé-na-bunda amoroso, sob a visão feminina. Essa música traça um panorama bem parecido ao descrito por Chico Buarque em “Olhos nos olhos”, sob a visão de uma mulher moderna. Um belo esporro!!! Que fique bem claro que as influências agora são transmitidas nas entrelinhas, como em “seu corpo eu larguei pra vida e as lembranças mandei pro esgoto, junto às mágoas corrosivas”.

A faixa-título, “O papo do bicho”, é um ragga, que encontra um repente, que encontra um axé, que encontra um muffin – que é bolinho em inglês – só para se ter uma noção do que rola nas entrelinhas e na cabeça do Vavá, que tem algum cabelo e muitas idéias que lhe sobram. “Tota-tola” é a canção mais comercial e anti-comercial que já vi. Digo comercial no sentido de que devia ser o jingle oficial de todos os tempos, não só da Coca-cola, mas também do Ministério da Saúde, do PCC e até do Greenpeace ou WWF, ou coisa parecida.

“Arará” é um xote? É um reggae? Pelo toque da guitarra é um reggae, mas se isso não é um xote... Não sei, não... Mas o que importa é a letra que diz “a minha como há muito não fazia – o arará – e fez a minha, mas não fazia”. “Ai ai ai Niemai” foi inspirada no arquiteto que inventou as esquinas de Brasília, mas também quer falar do prato tradicional da culinária do inferno. Mas eu é que não vou comer isso aqui!

No esquema piscou-perdeu, você ouve várias vinhetas durante todo disco, e são elas que pontuam a intenção do disco. Quando percebi “Resolver” passou. Em “Mimo”, Vavá encerra o disco como mestre da bateria de caixinhas de fósforos e maestro do baixo. Um reggae-samba que é quase uma canção de mimar, seguida por mais uma breve vinheta, em “Poemeta distintiva”.

Vavá Afiouni e o Toró de Palpite fazem um rock que não é rock e que mistura reggae, com xote, com ragga, com groove e muito baixo. Mas ainda que seja um disco simples, é cheio de nuances e pequenos detalhes que até mesmo a inclusão de uma canção de Noel Rosa faz sentido no final das contas. Através das linhas que dizem “há de viver eternamente sendo escrava dessa gente que cultiva a hipocrisia”.

2010 O Papo do Bicho

1. Macarrão com molho
2. O sistema é bruto (& Indiana Nomma)
3. Tota-tola
4. O começo
5. O trono
6. Da cárie
7. Filosofia
8. Poemeta catapulta
9. O papo do bicho
10. Arará
11. Ai ai ai Niemai
12. Poemeta dialética
13. Resolver
14. Mimo
15. Poemeta distintiva

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9.10.2007

O ENGENHOSO FILDALGO DOM WAVA EL AFIOUNI

Fui no tororó, beber água e não achei, achei foi o Toró de Palpite quebrado tudo com a ’fofúria das marimbas, dos djambés, dos atabaques, das moringas, dos bongôs da fonte-de-água-molhada.

Quer saber o que é o som do Toró de Palpite? Eu também! Mas só posso dizer que as músicas são chiclete nos ouvidos e também pela ’fofúria dos arranjos, harmonias e das melodias zoonóicas.

Putaqueopariu, Wava! Que puta sonzásso ficou o disco. Você e o Cobrinha piraram na batatinha hein? Na hora da masterização. Eu até quero um pouquinho desse aí, viu?

Aquela velha história de experimentar, gravar um CD, levar no som do carro, ouvir também no som da casa, no DVD do vizinho, e até largar nas pickups do Barata, lá lounge no Calaf. Daqui a pouco vocês vão estar gravando os bumbos da batera, no assoalho do banco traseiro de algum carro.

Ficou sério esse negócio de subir os graves e encorpar o som. E que experimentação doida? Você usaram até mesmo som de construção. Isso quase virou ‘música descontrolada’...

Para quem não sabe, o Toró de Palpite é formado pelo Wava El Afiouni no baixo e voz, Rodrigo Barata na bateria, Claudia Dalbert no vocal e congas, e João Ferreira no violão e guitarra. Mas daí também participaram do disco vários músicos da cidade, como Assis Medeiros (da postagem anterior), Dudu Maia, Wagner Galvão, Cacai Nunes, entre outros, e até o Esdras Nogueira, que toca saxofone nos Móveis Coloniais de Acaju.

O que que é isso? Tem até um samba pro Bin Laden! E que tecladinho mais Pink Floyd esse do Waguinho hein? Pra quem não sabe também... O Wava, o Barata, o Dudu e o Waguinho tocavam juntos no Xalé Verde. Essa banda de Brasília, lançou um único disco em 1999 e acabou acabando devagar, divagando... Mas a banda gerou outras bandas, que também já acabaram, mas que também já geraram outras bandas. Uma delas é o Toró de Palpite.

A capa do disco tem desenhos do Mateus Dutra e arte gráfica do Tiago Pezão. A produção musical e masterização ficou mesmo a cargo do Cobrinha. Putaqueopariu Cobrinha? Ficou bom demais essa masterização! Daqui pra frente é só arrumar o bumbo automobilístico.

E essa história do SuperWava, hein? Que doidêra? Quero um também... Mas eu gostei mesmo da musiquinha do Looney Toones ao fundo. Isso foi no apê do Cobrinha? È porque esse som me remete à infância e as belas manhãs de moleque vendo esses desenhos na TV, e o Cobrinha não combina com o período da manhã.

Mas daí eu me lembrei que hoje em dia existe TV a cabo e que poderia muito bem ser durante a noite, que é o horário natural do Cobrinha. E um tema recorrente do disco é o mar, a água, líquidos etc.

Daí, estavamos todos de frente para a praia, e as ondas lambiam deliciosamente as areias já escaldadas pelo intenso sol. O fim de tarde era reluzente e brilhante, pintando o céu de cores vivas e incandescentes, que fosforeciam com a menor incidência de luz. No fundo da aquarela salgada, jaziam pepitas de marfim revestidas em ornamentos lúdicos, que remetiam aos seres longíguos do fundo do mar.

Entre águas profundas e impenetráveis, nos depararmos com translúcidas e transparentes, e cheias de luz, que chegavam a refletir seu interior. Algumas jaziam imóveis e flutuantes, enquanto outras nadavam livremente num balé néon e lusco-fusco. Faziam círculos entre as outras e giravam por toda parte em busca de melhor iluminação. As que jaziam imóveis, flutuavam piscando, piscando, piscando, e piscando, e naquela imensidão, imersidão, onde nem mesmo os afogados penetravam, refletiam a sinfonia marítima de Poseidon.

Eram seres longíguos do fundo do mar, ou não... Eram o sim, ou o não... Vai ver teríamos onda errada, uma auto-indução-alucinação... Mas eu tomei um pedacinho igual aos seus...

Por isso mesmo é que todo mundo deve baixar esse som! Tem que baixar esse som! Vixê Maria! Se não baixar? Vai perder um sonzão... Vai que é somdubão!

2007 Toró de Palpite

1. Ô social
2. Afofúria
3. Peixe
4. Pangaré
5. Angico vermelho
6. Deveras neios
7. Minina
8. Jaboticabeira radioativa
9. Sambobim
10. Zé
11. Zôonóias
12. Zôonóias II
13. O retorno da nokuda
14. Faixa 14 (Bônus... ou não)