domingo, 23 de novembro de 2014

A CAPIVARA HERMÉTICA DO CERRADO COLONIAL

Esdras Nogueira homenageia Hermeto Pascoal com álbum solo recheado de composições do albino hermético.


Esdras Nogueira é um dos fundadores da banda brasiliense 'Móveis Coloniais de Acaju', onde toca saxofone barítono.

Em seu primeiro trabalho solo, Esdras juntou um time de grandes feras do cenário musical brasiliense, Célio Maciel na bateria, Vavá Afiouni no baixo, Marcus Moraes nos violões e na guitarra, Dudu 7 Cordas no violão de 7 cordas e cavaquinho e Leo Barbosa na percussão.

Com todo esse time, Esdras reuniu um punhado de composições do Hermeto Pasocal e produziu o álbum, junto com Marcus Moraes, Dudu 7 Cordas e Gustavo Dreher, que também foi o técnico de gravação. Com arranjos coletivos, o disco ficou pronto cheio de estilo e gêneros dispares, mas mesmo assim complementares.

Tem o samba como em 'Viva o Rio de Janeiro', 'Chorinho pra ele' e em 'Capivara', que dá nome ao disco e tem um lado bem jazzístico. Esdras expõe o lado hermético e experimentalista em 'Ginga carioca', 'Vale da Ribeira' e 'Voa Ilza'. Mas também extrai o tempero latino de 'Irmão latinos', o frevo em 'Frevo em Maceió' e a delicadeza das melodias do maestro em 'Balaio'.

Além de músico o cara é um cozinheiro de mão cheia – junto com a esposa – ele mantém um site gastronômico onde ambos oferecem jantares especiais a um grupo de colaboradores e mantenedores do restaurante informal e interativo. No projeto 'Coma Lá em Casa', além da comida Esdras também oferece um bom papo e música boa. Da mesma forma que a entrevista abaixo.

Como surgiu a vontade de gravar esse disco com músicas do Hermeto?

Queria fazer um disco solo, instrumental com o sax barítono, depois de três discos e dois dvds com o 'Móveis', deu vontade de fazer algo diferente, o trabalho em grupo é massa, mas queria paralelo a isso fazer algo que ainda não tinha feito. O Hermeto é um cara que sempre admirei, e a música dele mudou o meu jeito de tocar, de entender a música, ele tem muita identidade, e muitas composições lindas, resolvi me arriscar.


Como você selecionou o vasto material do maestro albino? Uma vez que ele próprio publicou aquela carta autorizando quem quiser a gravar suas músicas...

Pois é essa carta é de uma generosidade, muito massa, depois disso fiquei mais fã ainda. Fiquei um ano pensando no repertório, nas músicas que ficariam bem no sax barítono, músicas de diferentes estilos, mas o Hermeto é um dos maiores gênios da música de todo mundo, e tem muita coisa boa, foi difícil separar só nove.

Como ocorreram as gravações deste álbum? Qual foi o processo dos arranjos?

Se a seleção de repertório foi longa, a gravação foi muito rápida. Fizemos cinco ensaios e cinco diárias. Pensei no caminho que queria para cada música, sentei com o Marcus Moraes e com o Dudu 7 Cordas e direcionamos as idéias.
Foi uma vibe muito boa. Tocar com essa galera foi um prazer enorme, caras muito bons, um privilégio fazer esse trabalho com essa moçada.

Como foi o processo de gravação?

Foi muito colaborativo, todo mundo deu muito ideia e no final o arranjo é o que mais conta do trabalho, e esse foi todo mundo junto. A mixagem foi feita pelo Gustavo Dreher, a masterização pelo Thomas Dreher, a arte da capa é do Bernardo França e o design do Gustavo Goes.

Como você vê essa questão de downloads gratuitos? Você acha que é benéfico ao artista?

Acho ótimo. Pelo menos pra mim é muito bom, é a maneira direta e mais fácil de chegar na casa das pessoas, e quem quiser, depois pode colaborar no site, pode comprar no itunes, tem o disco físico, mas se só baixar de graça já está valendo. Isso cria um público e aproxima as pessoas, acho que o caminho da música é por aí. O 'Capivara' tá de graça pra download no meu site, http://www.esdrasnogueira.com.

2014 Capivara

1. Viva o Rio de Janeiro
2. Balaio
3. Frevo em Maceió
4. Ginga carioca
5. Chorinho pra ele
6. Irmãos latinos
7. Vale da Ribeira
8. Capivara
9. Voa Ilza

domingo, 16 de novembro de 2014

NESSA TERRA DE GIGANTES

O tributo à banda 'Engenheiros do Hawaii' apresenta grande diversidade de bandas e artistas no cenário musical brasileiro.


Lançado pelo site 'Scream and Yell', da mesma forma que a homenagem ao clássico seminal de Belchior, 'Alucinação', o tributo aos 'Engenheiros do Hawaii' reapresenta os grandes sucessos da banda na voz de outros artistas.

Gente como o cantor Dary Jr. da banda 'Terminal Guardalupe', que assume a persona de Dario Julio e os Franciscanos e apresenta 'Números'. Bem como as bandas 'Forfun', com 'O Papa é pop'; 'Monocine', com 'Refrão de bolero'; 'Nevilton', com 'A promessa'; 'A Banda mais Bonita da Cidade, com 'Pose'; e muitos outros grupos.

Destaque especial para a reconstrução de 'Terra de gigantes' com Phillip Long, 'Infinita Highway' com o 'Strobo', 'Alívio imediato' com 'Dias Buenos', 'Somos quem podemos ser' com 'Dingo Bells', 'Eu que não amo você' com Lula Queiroga, 'Pra ser sincero' com a cantora japonesa 'Tsubasa Imamura', entre muitas outras canções e intérpretes.

2014 Espelho Retrovisor (Tributo aos Engenheiros do Hawaii)

1. Toda forma de poder – Anacrônica
2. Terra de gigantes – Phillip Long
3. Refrão de bolero – Monocine
4. Infinita Highway – Strobo
5. Somos quem podemos ser – Dingo Bells
6. Alívio imediato – Dias Buenos
7. O Papa é pop – Forfun
8. Pra ser sincero – Tsubasa Imamura
9. Quartos de hotel - Blancah
10. Ando só – Mário Wamser
11. Pose – A Banda mais Bonita da Cidade
12. Parabólica – Vera Louca
13. A promessa – Nevilton
14. Ilex Paraguariensis – Bebeto Alves
15. 3 minutos – Dolores 602
16. Eu que não amo você – Lula Queiroga
17. Concreto e asfalto – Esteban Tavares
18. Números – Dario Julio e os Franciscanos
19. Don Quixote – Fernando Aniteli
20. Outras frequências - Borba
21. Não consigo odiar ninguém – Sonorata

domingo, 9 de novembro de 2014

CADA MALOQUEIRO TEM UM SABER EMPÍRICO

Em segundo álbum, Criolo busca expandir o alcance do álbum de estréia assumindo um posicionamento crítico em favor de mais amor e tolerância.  


O clima abre tenso no novo álbum do Criolo, 'Convoque seu Buda' é o título do petardo, bem como a faixa de abertura, que inicia como um golpe marcial. A canção pode ser considerada uma irmã mais nova de 'Lion Man' – do disco anterior, 'Nó na Orelha' – porque emula os sons da África oriental, mais precisamente da Etiópia de Mulatu Astatke. A canção ainda trás referências ao desenho Naruto, ao movimento “ocupai”, energia eólica etc.

Na sequência, Criolo apresenta um batuque afoxé de introdução para a pedrada na orelha de 'Esquiva da esgrima', na qual ele apresenta diversas referências, pérolas poéticas e rimas tensas e frenéticas como “nas benção de Padim Ciço às letras de Edy Rock”. Cabe até um recado aos golpistas do momento em “pois quem toma banho de ódio exala o aroma da morte”.

Quem disse que rap não pode ser pop? Engana-se porque o Criolo faz isso como ninguém, vide a canção 'Cartão de visita' com participação de Tulipa Ruiz, após uma introdução especialmente radiofônica. O som faz reverência ao funk estilo 'Parliament' e 'Funkadelic' de George Clinton. Uma crítica mordaz à elite brasileira como diz na letra em “O opressor é um míssil e o sistema é cupim e se eu não existo, por que cobras de mim?”. No final, Criolo tece uma súplica a Lázaro Ramos ou alguém que nos ajude a entender essa “gente indigesta”. Uma canção que poderia ser considerada como o reverso direto de 'Gente humilde' do Chico Buarque – e não é a primeira vez que o Criolo reverencia o cantor de Holanda como fez na versão exclusiva de 'Cálice', a qual o próprio Chico homenageou em show.

Porra Criolo! Ainda nem cheguei ao meio do álbum de você já veio com 'Casa de papelão'? Uma canção de letra pungente recheada de figuras de linguagem e um arranjo de sopros de um Thiago França inspiradásso. O cara simplesmente incorporou o maestro Leitieres Leite em vida, ou se melhor quiserem Villa-Lobos, Radamés Gnatalli ou qualquer um de sua melhor escolha. “Toda pedra acaba, toda brisa passa, toda morte chega e laça, são pra mais de um milhão... corpos na multidão”, diz Criolo na letra.

Depois de toda polêmica ao redor do samba 'Linha de frente' – já resolvida com o sambista MamãoCriolo vêm com o samba de roda 'Fermento pra massa', na qual ele conta o cotidiano dos subúrbios de todo país e suas agruras diárias. Como sempre, nas letras do Criolo, existe uma crítica velada na alegre narrativa da canção, onde ele traça uma crônica do caminho que o pão de todo mundo faz desde a mesa do consumidor ao padeiro, atrasado por causa de uma greve de ônibus.

'Pé de breque' retorna ao dub – como 'Samba sambei' do disco anterior – e faz diversas referências culturais, como sempre ocorrem nas canções do Criolo, numa velocidade internética. 'Pegue pra ela' é o afrobeat do álbum, onde Criolo demonstra toda sua destreza de ótimo poeta contemporâneo, vide “Toda cultura vira comércio, é o ponto de degradação, então, se pra cada ponto, processo e cada processo uma ação”.

'Plano de vôo' tem participação insana de 'Síntese', que até ele ficou sem fôlego depois de cantar toda aquela letra toda na mesma talagada de uma só vez sem nenhuma parada... 'Duas de cinco' já havia saído antes como single – inclusive recebeu clipe super-produção junto com o lado B, 'Cóccix-ência'. Essa canção foi construída por cima de 'California azul' de Rodrigo Campos, do álbum 'São Mateus não é um Lugar Assim tão Longe'.

Na faixa de encerramento, Criolo compõe em cima da canção 'Padê Onã' de Kiko Dinucci e o 'Bando AfroMacarrônico', criando a híbrida 'Fio de prumo (Padê Onã)', que mistura afoxé com baião e com maracatu. Com vocais de Juçara Marçal e rima forte do próprio Criolo, que mescla Ori com Ogi, revide com declive, 80 com cibalena, vai com stand-by e muitas outras métricas.

O disco novo do Criolo merece todo esse alarde e cumpre toda expectativa em cima dessa obra. O disco trás a mesma coerência com o saber empírico, que o maloqueiro doido sempre apresentou – um posicionamento em prol de mais amor e mais tolerância.

2014 Convoque seu Buda

1. Convoque seu Buda
2. Esquiva da esgrima
3. Cartão de visita (ft. Tulipa Ruiz)
4. Casa de papelão
5. Fermento pra massa
6. Pé de breque
7. Pegue pra ela
8. Plano de vôo (ft. Síntese)
9. Duas de cinco
10. Fio de prumo (Padê Onã) (ft. Juçara Marçal)

domingo, 2 de novembro de 2014

ME PEGA, ME PAGA, ME LEVA, ME LAVA, ME LOVE

O som cosmopolita do 'Sacassaia' se volta mais aos ritmos brasileiros, mas também segue investindo no ragga, reggae, dub e similares.


Da ultima vez, o 'Sacassaia' era um duo formado por Gardenel e Tony Robalo, mas tinha diversas participações especiais de Renato Matos, em várias faixas do álbum de estréia, 'Sampleando Deus e o Mundo' de 2009. Hoje o que eram dois viraram três – efetivando de vez a inclusão do pai do reggae brasiliense, bem como adotando os nomes Gabriel Reis e Tomás Seferin, respectivamente.

Com esse lançamento, 'Boca da Terra', o 'Sacassaia' se firma no cenário musical nacional, com um álbum recheado de influências afros de terreiros de umbanda e candomblé, mas tudo devidamente temperado com as batidas eletrônicas de Tomás, a rima tensa e nervosa de Gabriel com a voz gentil de Renato e seu “ziriguidum do além”.

Logo de cara se percebe que a estimada contribuição de Renato Matos fez bem ao som da dupla, que agora é um trio. Não fosse a presença do cantor e compositor de 'Um telefone é muito pouco' – conhecida nacionalmente na voz de Leo Jaime – o 'Sacassaia' não teria a inclusão de temas africanos e dialetos de umbanda e candomblé.

Essa adição de novos temas e batidas deixou o o som da banda mais orgânico que eletrônico, num contraponto ao disco anterior – 'Sampleando Deus e o Mundo'. Destaque para canções como a faixa-título 'Boca da terra', 'Remandelagem', 'Barravento', 'Dizeres desertos', 'Ninguém dorme' e 'Boca oca'.

O estilo de letras recheadas de aliterações e referências inusitadas deixa uma atmosfera delirante. O disco também tem inúmeras participações especiais como Rafá Dorneles, Lupa Marques, Moises Alves, Edinho Silva, Tekokatu Enitan, Ras Kakaroto, Vitor Pirralho, Renata Jambeiro e Ellen Oléria.

2014 Boca da Terra

1. Boca da terra
2. Remandelagem
3. Nobre plebeu
4. Batida catira
5. Barravento
6. Dizeres desertos
7. Ninguém dorme
8. E o mar secou
9. Boca oca
10. Onda do mar
11. Cubro meu corpo
12. Padê digital
13. Você é o lugar

domingo, 26 de outubro de 2014

MUNTCHAKO É NOCAUTE CERTO



O 'Muntchako' é uma pancada forte no estômago. Dessas que pode ser sentida também dos tímpanos aos pés. É como um soco de uma polegada do Bruce Lee, e também flui como água, sem a menor contenção.

Ë ao mesmo tempo um som macio e áspero, revelando toda a dureza da arma de artes marciais. Mas também é suave e pesado como deve ser todo som recheado de groove. De balanço o 'Muntchako' é cheio. A sonoridade remete à clássicos como Fela Kuti e Santana, mas também aparecem influências mais atuais.

A construção sonora denota certos elementos cinematográficos com um roteiro livremente inspirado nas artes marciais – relacionando também o nome da banda com o cenário dos filmes de luta. A utilização de elementos analógicos, digitais, orgânicos e eletrônicos faz com que o som seja visto como uma entidade mais parecida a um ciborgue.

Formado por Macaxeira Acioli (percussão e samplers), Rodrigo Barata (bateria e samplers) e Samuel Mota (guitarra, synths e programações), o 'Muntchako' apresenta um som de pegada firme e forte como qualquer golpe fatal. Com a grafia incorreta, Acioli afirma que acredita dessa forma apelar ao inconsciente coletivo brasileiro, que já é acostumado com o erro da escrita.

O certo é que o 'Muntchako' apresenta uma forma única de fazer música, onde realmente os fins justificam os meios. Tudo pode, desde a utilização de qualquer ritmo a quaisquer timbres e não existem amarras para a realização de qualquer parada. O 'Muntchako' surfa nesta nova maneira de se produzir e consumir música decolando de forma surpreendente com uma canção ao mesmo tempo hype e vintage.

'Emojubá' é o nome do petardo e trás referências de tudo que esses camaradas produziram até hoje. Acioli trouxe reverências do 'Cabruêra' e 'Hypnotic Brass Ensemble', Barata da banda 'Sistema Criolina' e Samuel do 'Jah Live' e GoG.

Os três formam um trio diferente, que combina muito bem todas as distintas qualidades, unificando o som numa parede sonora, que mal pode ser classificada em qualquer gênero ou estilo. Ouve só, que a cuca fundida é garantida...

domingo, 19 de outubro de 2014

ME LEVARAM PARA NAVEGAR EM OUTRAS ÁGUAS

Cantor paulistano apresenta obra madura em disco conceitual cheio de referências que vão desde 'Bossa Nova', 'Tropicália' ao 'Clube da Esquina'.


O terceiro álbum de Pipo Pegoraro chega com identidade única e apresenta uma banda de pegada forte, firme e coesa. Com produção e direção musical de Romulo Fróes, a banda fez uma imersão em estúdios de ensaio e definiu os arranjos de todo disco.

Esta banda é formada por Décio 7 na bateria, Gustavo Cék na percussão, Marcelo Dworecki no baixo, Cuca Ferreira no saxofone e flauta, Fernando TRZ no piano e Lucas Cirillo na gaita, além do próprio Pipo nas guitarras e vocais.

O álbum abre com 'Aiyê', uma delicada overture para um complexa obra conceitual. 'Cambaleei' tem participação de Xênia França nos vocais – que também divide os vocais com Pipo na banda 'Aláfia'. 'Dia desses' apresenta uma peça “rockenrou”, meio afrobeat, meio jazz – um dos belos resultados dos ensaios exaustivos para a criação de todos arranjos.

'Indecifrável' tem a voz de Filipe Catto – sem falar na segunda aparição de Xênia – com a percussão adicional de Guilherme Kastrup, o clarinete de Luca Raele e baixo acústico de Marcelo Cabral, numa canção composta em parceria por Pipo e Fróes. 'Olhos de Henri' é o perfeito interlúdio para esta obra envolvente e “submersiva”.

'Sabão de coco' trás um quarteto de cordas – com Veridiana Oliveira e Alexandre Brito (violino), Marcio Eli Junior (viola) e Yaniel Matos (violoncelo) – numa canção de estranha beleza, mas que remete ao som natural do Brasil, evocado lindamente anteriormente por Tom Jobim e pelos mineiros do 'Clube da Esquina'. Além das influências das terras tupiniquins, Pegoraro apresenta referenciais no outro lado do Atlântico.

Em 'Pra continuar' ele introduz o tema em loop remetendo à introdução de 'On the run' do 'Pink Floyd' – no 'Dark Side of the Moon'. Para logo em seguida apresentar ecos de 'Let there be more light' – faixa de abertura do álbum 'A Sacerfull of Secrets' do mesmo 'Pink Floyd'. Com a voz cadente de Romulo Fróes, a canção parece mesmo ter saído de algum álbum dos bardos ingleses, mas sempre mantendo o tempero característico do inúmeros mulatos inzoneiros, que são reverenciados neste álbum.

'Saudação' segue como uma vinheta de abertura para a canção 'Rosália', que conta com o vibrafone de Beto Montag fazendo contraponto ao conjunto da obra. Nessa canção, Pipo vai desvelando o material e deixando claro que sua zona de conforto ficou para trás – como diz a letra em “me levaram pra navegar em outras águas” – canção de Pipo e Pablo Casella. 

'O que só cabe em nós' encerra o álbum dando um resultado a todo contexto, como o final de um tear ou numa colagem antropofágica. Com a voz de Luz Marina e composta numa parceria de Pegoraro com o poeta Arruda, a canção além de dar título à obra, revela o significado de tudo que foi apresentado desde então.

O disco de Pipo Pegoraro define-se apenas no final. Desvela-se quando finda. Enfim... Ouça até o fim e verá...

2014 Mergulhar Mergulhei

1. Aiyê
2. Cambaleei
3. Dia desses
4. Indecifrável
5. Olhos de Henri
6. Sabão de coco
7. Pra continuar
8. Saudação
9. Rosália
10. O que só cabe em nós

domingo, 12 de outubro de 2014

PODE VIR QUENTE QUE O QUE É TEU TÁ GUARDADO

Como uma Unidade, Saulo Duarte e banda apresentam o veneno do Quente, segundo álbum do grupo.  

Saulo Duarte despontou em 2013, com o ótimo disco auto intitulado e grandes canções como 'Amor de piração', 'Mistério no olhar', entre outras. Tocando com o mesmo grupo há seis anos – 'Saulo Duarta e a Unidade' como são conhecidos – eles fazem uma sequência perfeita para o disco do ano passado.

O álbum 'Quente' faz a mesma receita dançante e cosmopolita de sons latinos como a cumbia, o carimbó, calipso, reggae, lambada e guitarrada, e simplesmente uma música boa para ouvir e requebrar os quadris. Mas que fique bem claro que lambada é o mesmo que guitarrada.

Com um disco de canções populares, Saulo passeia em um repertório de canções inéditas que se valem de diversos ritmos latinos. Tem a guitarrada de 'Zonzon' e 'Lambada do anel', mas também trás a cumbia de 'Flores do ar' e 'Dos olhos em diante', que mistura influências westerns-norte-americanas.

Com Duarte nos violões, guitarras e vocais, João Leão nos teclados, Klaus Senna no baixo, Beto Gibbs na bateria e Túlio Bias e Igor Caracas nas percussões, a banda bem afinada e azeitada esbanja naturalidade e ainda conseguiu participações de gente como Manoel Cordeiro, Betão Aguiar, Mestre Dalua, Jorge Ceruto e muitos outros.

Em 'Yo vengo' o grupo apresenta uma balada carregada na sensualidade dos vocais de Vera Souza, enquanto 'Massafera' abusa do suíngue na participação cósmica de Daniel Groove. O reggae de 'Me dei conta' tem a participação de Curumin, que também toca clavinete e mpc.

Há carimbó nas faixas 'Tô que tô... saudade' com os vocais de Luê, e 'No coração da mata' com a voz de Felipe Cordeiro. Esta última canção encerra o álbum com ares tropicalistas e referências mil de Caetano aos arranjos de Julio Medaglia.

O disco apresenta um Brasil Amazônico ao dar uma roupagem popular à todos os cânticos tradicionais dos povos de todos os lugares. Para todos aqueles que ouvêm desde Gaby ao Mestre Lua.

2014 Quente

1. Flores pelo ar
2. Na companhia dos seus
3. Dos olhos em diante
4. Tô que tô... saudade
5. Zonzon
6. Ya vengo
7. Me dei conta
8. Lambada do anel
9. Massafera
10. Interlúdio Zonzon
11. No coração da mata

domingo, 5 de outubro de 2014

BARULHO FEIO DA MENTE DE ROMULO

Compositor paulistano lança quinto disco da carreira solo entre o silêncio e a palavra, o samba e o experimental. 



O álbum 'Barulho Feio' mostra um Romulo Fróes hermético e cheio de caos e simplicidade, com as participações de Marcelo Cabral (baixo elétrico e acústico), Guilherme Held (guitarra) e Thiago França (saxofone). Pode ser um disco de samba, mas também pode ser experimental, bem como também da nova safra de música popular brasileira.

Romulo vêm como um cão calado que morde para depois assoprar. 'Barulho Feio' abre com a cacofônica 'Não há, mas derruba' para em seguida dar lugar para a delicadeza de 'Na minha boca'. Nesse disco, a rua está presente como fio condutor entre todas canções, criando uma unidade para todo o conjunto – como deixa bem claro na canção seguinte. 'Pra comer' é delicada e ao mesmo tempo cheia de brutalidade.

O violão de Fróes pontua 'Como um raio', seguida pela voz clara e nua em 'Poeira' – “poeira os olhos dentro d'água” diz a letra de Nuno Ramos dentro da melodia de Mariana Aydar. Porque o disco é sobre melodia do silêncio e da palavra – como bem exemplificado na canção-título, 'Barulho feio'.

Em 'Espera' Fróes faz um dueto com Juçara Marçal, sobre os sons de rua que apesar de permanecerem em segundo plano estão sempre prevalecendo entre uma canção e outra. 'Ó' trás referências e reverências às canções de bossa-nova, com a desconstrução total de todos elementos que tornaram o movimento tão bem sucedido.

'Peixinho triste' foi composta por Lanny Gordin, Held e Ramos, onde os sons da rua se confundem com a melodia, criando uma ponte perfeita para a próxima faixa, 'Cadê'. Na sequência 'Se você me quiser', mais um exemplo do bate e consola deste álbum. 'Noite morta' segue distorcendo e entortando até não sobrar osso sobre osso.

Em 'O que era meu', Fróes transforma o ouvinte nas cordas do violão (ou guitarra) no momento de afinação do instrumento. Esticando e tencionando todas percepções auditivas. 'Para ouvir sua voz' retira toda tensão aplicada na afinação forçada para dar lugar à delicadeza bela e simples. Encerrando na singela 'A luz dói'.

O álbum 'Barulho Feio' é uma obra coerente e coesa entre si e todos outros discos lançados este ano. Com este disco, Romulo se detém como maestro de uma geração – ditando modelos e retirando quaisquer limites quanto gêneros, ritmos e estilos.

2014 Barulho Feio

1. Não há, mas derruba
2. Na minha boca
3. Pra comer
4. Como um raio
5. Poeira
6. Barulho feio
7. Espera
8. Ó
9. Peixinho triste
10. Cadê
11. Se você me quiser
12. Noite morta
13. O que era meu
14. Para ouvir sua voz
15. A luz dói

domingo, 28 de setembro de 2014

NÃO HÁ TERRA NESSE VASO E NÃO HÁ VASO NESSA TERRA

No 'Paraíso da Miragem' é título do disco de estréia de Russo Passapusso, e também é o primeiro grito entoado pelo cantor.  


Russo Passapusso é conhecido pela voz única, que ao mesmo tempo remete ao suíngue malandro de Jorge Benjor ao flow intenso dos cantores de rep atuais. Russo é a voz a frente de bandas como 'BaianaSystem' e 'Bemba Trio', assim como em trabalhos de outros artistas, como Curumin, Anelis Assumpção, Maga Bo, entre outros.

A mistura de ritmos e estilo é o ponto de partida deste álbum. Em 'Paraquedas', Russo mistura afrobeat com maracatu como a coisa mais natural do mundo. 'Remédio' entra na sequência como um hino roquenrou estadiofônico com a guitarra de Edgard Scandurra, que no final arrefece o clima lentamente até levá-lo a outros caminhos...

'Flor de plástico' segue como uma ode ao cancioneiro de Benjor, no melhor estilo 'Domingo 23', 'Que nega é essa', 'Mulher brasileira' etc. “Nessa terra-rá-rá-rá, nesse vaso-zum-zum-zum”, suínga Russo. Em 'Anjo', Passapusso apresenta um ser-alado negro e mulato, que desce ao país do samba para curtir um barato na terra-rá-rá-rá.

'Sem sol' apresenta a voz de Anelis Assumpção em dueto com Passapusso, num interlúdio do álbum. Uma serenata da “lua de prata, ingrata, (que) eclipsou”.... 'Areia' é um samba vocal de letra minimalista e arranjo corpulento. 'Sangue do Brasil' vem como um híbrido entre o sambajazz e sambarock, clima que se mantém na canção 'Relógio'.

'Sapato' apresenta a participação de Thalma de Freitas nos vocais com Passapusso. A letra segue a levada de construção impressionante de Russo, com sua peculiar mistura do suíngue com o flow. 'Devagar', com programação e guitarra de Junix, é quase como uma vinheta de introdução para 'Matuto', um sambarep eletrônico, cheio de barulhinhos e programações, que mostra Russo muito a vontade em misturar todos esses elementos.

'Autodidata' encerra o álbum com participação de B. Negão e Fael Primeiro. Com este disco, 'Paraíso da Miragem', Russo Passapusso inscreveu seu nome no panteão dos novos grandes artistas que têm um discurso musical significativo e não têm medo do download gratuito.

2014 Paraíso da Miragem

1. Paraquedas
2. Remédio
3. For de plástico
4. Anjo
5. Sem sol
6. Areia
7. Sangue do Brasil
8. Relógio
9. Sapato
10. Devagar
11. Matuto
12. Autodidata

domingo, 21 de setembro de 2014

ENQUANTO HOUVER SOPRO EM QUALQUER CANTO

Trompetista acredita que a auto-produção e promoção é a verdadeira ferramenta do artista em meio às mudanças do novo mercado musical.  


Leandro Joaquim é o trompetista de bandas como 'Abayomy', 'Paraphernália' e da banda de apoio de Jards Macalé – sem falar que foi um dos fundadores da banda 'Sobrado 112', junto com Zé Vito e Claudio Fantinato, que também o acompanham nas levadas afrobeat.

“O Sobrado 112 foi nosso celeiro de idéias e laboratório de produção e criação por muito tempo. A demanda era grande, a banda gravou três discos em três anos. remamos muito juntos, mas demos muita cabeçada também”, declara Leandro. Para ele, a banda encerrou as atividades pela preservação das amizades – tanto que todos tocam juntos na 'Abayomy'.

Leandro lançou o primeiro álbum solo, 'Sobre as Cores e o Nosso Tempo', com produção de Ricardo Dias Gomes – que toca baixo e piano com o 'Do Amor' e com a banda 'Cê', de Caetano Veloso. “Como eles já tocam a muito tempo com o Caetano e tem uma linguagem de banda bem definida e uma pegada seriamente roquenrou, o Ricardinho chamou o Pedro Sá e Marcelo Callado pra fazer as primeiras bases”, conclui.

A gravações aconteceram no 'Audio Rebel', com um equipamento das antigas e fitas de duas polegadas. “Tudo isso pra trazer o amalgama do som que foi gravado ao vivo, em sua grande maioria. Refiz apenas vozes e sopros. A base valeu sempre o melhor take ao vivo”, afirma Leandro.

O álbum abre com 'Jóias e gestos' – “um blues de protesto que fiz pra uma vizinha. A letra traça um paralelo entre os diversos equívocos de comportamento que nossa sociedade moderna desfila, e a zona que era aquela casa! Cru, o synth é sujo, na bateria usamos apenas os mics “over all”. Amps de baixo e guita na mesma sala da batera. Pintou também uma surdina wha-wha no trompete que quase parece uma gaita”, comenta Leandro.

Sobre 'Pero que si, pero que no', Leandro confirma que compôs “esse Ska no tempo do Sobrado e tocávamos na abertura do show, porem em ritmo de tango! (rs) Marlon Sette e Ze Carlos Bigorna fizeram trombone e sax tenor comigo. Gustavo Benjão fez guitarra pica-pau. Ficou Skatalites total!curti muito o resultado, e ainda tem um feedback da máquina de fita no inicio que dá uma onda “Jamaica Studio One””.

'Em suma, na real, de fato' Leandro trouxe de volta o pessoal do 'Sobrado 112'. “Convidei os caras do 'Sobrado' pra fazer uma releitura dessa musica que tocávamos mas nunca gravamos. Legal notar a influencia afrobeat já constando, mesmo antes de fundarmos a 'Abayomy Orquestra'.

'Sobre as cores e o nosso tempo', “era uma bossa nova que fala de amor e paisagem, porém foi desconstruída e virou uma sinfonia de ruídos e passarinhos cibernéticos, sem samba, sem violão. Os efeitos e ficaram por conta do Duplexx, Leo Monteiro e o Rodrigo Bartolo. O desfecho da sinfonia se dá com um solo de flugelhorn estilo Chet Baker e o Bartolo fazendo uma guitarra (no melhor estilo Lafayette) Roberto Carlos. Tem um synth subwoofer do Ricardo Dias Gomes, que chega a ser desconfortável de tão sub!! Acrescentamos uma certa acidez e estranheza naquela paisagem bossa-novística”.

'Tanto quando o encanto' é a balada do álbum. “Essa valsa minimalista tem uma certa influência erudita. Usei piano fender rodhes e a Joana Queiroz gravou o clarinete, que passeia lindamente ao redor da letra que fala de amor, jardim, flor, colibri e girassol”, comenta Leandro.

Em 'Fofafifo's blues', Leandro apresenta as participações de Alberto Continentino no baixo acústico, Stephane San Juan na bateria, Ricardo Dias Gomes no rhodes e Rodrigo Munhoz no sax tenor. “É um blues estilo “boogaloo”, meio funkeado, meio jazzy”, confirma ele.

'Daqui pra frente é só relaxo' continua a tradição “sobradiana” de modificar canções pré-concebidas em certo estilo para uma coisa completamente diferente. “Era chorinho, mas virou dubwise puro”, ressalta Leandro. 'Faça algo por você' trás a participação de B. Negão nos vocais. “É uma crítica contundente e levante contra a manipulação feita pelo sistema através dos veículos de propaganda”, afirma ele.

O álbum se encerra com 'Dona de castelo' de autoria de Jards Macalé e Waly Salomão, com participação de Joana Queiroz no clarone em contraponto com o baixo de Ricardo Dias Gomes. “O próprio Jards sugeriu que eu gravasse uma de suas baladas em versão instrumental e eu escolhi a mais dificil!!! (rsrsrsrs)”, encerra Leandro.

Pela própria auto-produção e promoção, Leandro lança este álbum com propriedade de quem já é veterano. Apresentando um punhado de belas canções embaladas num produto de extremo bom gosto.

O fato é que este disco é uma das grandes surpresas do ano e com certeza um dos grandes lançamentos atuais.

2014 Sobre as Cores e o Nosso Tempo

1. Jóias e gestos
2. Pero que si, pero que no
3. Em suma, na real, de fato
4. Sobre as cores e o nosso tempo
5. Tanto quando o encanto
6. Fofafifo's blues
7. Daqui pra frente é só relaxo
8. Faça algo por você (& B.Negão)
9. Dona do castelo

domingo, 14 de setembro de 2014

BRINCANDO DE CUMBIA COM O SUPERLAGE

A banda 'Superlage' cria um som único, que apresenta uma mistura homogênea entre os ritmos latinos e brasileiros e a música eletrônica.  


A banda 'Superlage' foi formada em Pernambuco pela dupla Raimundo Alfaia e Eudes Ciriano, também conhecido como DJ Incidental, e conta com diversas participações como Jana Figarela, Alessandra Leão, Tom Rocha, entre outros.

O disco de estréia da 'Superlage' trás uma seleção de ótimas cumbias inéditas com uma roupagem eletrônica bem dançante. Toda cumbia já tem uma levada jamaicana, que quase pode ser reconhecida como reggae, mas que a percussão se encarrega de levar para um terreno “mucho más caliente”.

O álbum, 'Superlage', começa com 'O teu calor', uma cumbia eletrônica, que funciona como uma bela síntese do resto da obra – gravada como trio por Jana, Eudes e Alfaia. 'De tanto esperar' revela uma leitura precisa dos bailes de cumbia através da visão peculiar de Eudes e sua crônica sensual e elegante.

'La cicimila' repete o mesmo cenário lúgubre dos salões de dança, seguida por 'Cumbia das flores' – canções que já trazem as participações de Pierre Leite nos sintetizadores e Rocha nas percussões. 'Quero brincar de sol' reflete toda incidência de luz recebida do Astro-Rei, com Mauricio Candussi na sanfona.

'Dia de Rei' é uma homenagem a Iemanjá, seguida pela instrumental 'Uh la lai', lançada anteriormente como trabalho do DJ Incidental, mas incorporada no repertório da banda. 'Baila perfumada' talvez seja a única canção mais calcada nos ritmos jamaicanos, como reggae e ska. Isto é, sem muito da influência latina da cumbia, nem as interferências eletrônicas presentes nas outras faixas.

'Se o teu desejo é amar' apresenta um carimbó-havaiano, com o luxuoso auxilio da voz de Alessandra Leão e do naipe de metais formado por Gilberto Reis no sax alto, Daniel Galego no barítono, Augusto França no trompete e Thaison Ferreira no trombone – sem falar na guitarra de Juliano Holanda e guitarra-slide de Vitor Magall.

'Trança de raiz' segue a linha latinidade e mostra uma salsa-calipso com a pegada eletrônica, característica da banda. Enquanto 'Para de chover' retoma a cumbia de riff poderoso e pegajoso. O disco encerra com o remix ciranda-maracatu do DJ Lúcio K. para a canção 'O teu calor'.

As canções do álbum servem ao conceito da mistura de ritmos, gênero e estilos. “Todas têm esse chiado da cumbia, que cabe num afoxé, num forró, num samba e por aí vai – enfim, não tem como determinar, será o que você escutar e achar que é”, define Eudes.

Com este petardo, o 'Superlage' apresenta um som único extremamente dançante, com a elegância habitual de seus realizadores, Eudes e Alfaia, que assinam a produção do disco, junto com o verniz de Buguinha Dub na masterização e direção técnica.

2014 Superlage

1. O teu calor
2. De tanto esperar
3. La cicimila
4. Cumbia das flores
5. Quero brincar de sol
6. Dia de Rei
7. Uh la lai
8. Baila perfumada
9. Se o teu desejo é amar
10. Trança de raiz
11. Para de chover
12. O teu calor (Lucio K ciranda remix)

domingo, 7 de setembro de 2014

E O TERNO QUE ERA CONCRETO NA VERDADE É ABSTRATO

Filhos da vanguarda paulistana apresentam o novo rock psicodélico brasileiro com um olho no passado e outro no futuro.  


A guitarra de Tim Bernardes é cada vez mais feroz, o baixo de Guilherme d'Almeida, o 'Peixe' emana suingado e sofisticação enquanto a bateria de Vitor Chaves carrega cada vez mais peso e balanço. Fora as participações especiais de gente como Tom Zé, Luiz Chagas, Marcelo Jeneci, entre outros.

Com letras inspiradas Tim propõe uma crônica cotidiana, surreal e por vezes propondo teoremas conspiratórios. O álbum abre com a rasgante 'Bote ao contrário' de instrumental sofisticado calcado nos teclados especiais do próprio Tim. 'O cinza', única parceria de Tim com Chaves (todas outras composições são apenas de Tim) tem o riff poderoso de abertura substituído por um clima delicado até a melodia explodir em mil pedacinhos como “o jornal arremeçado”, da letra da canção – que descreve um dia nubloso em São Paulo de forma poética e singela.

'Ai ai como eu me iludo' poderia ter sido gravada por Otis Redding, caso este falasse português, mas cabe bem no arranjo poderoso d'O Terno'. Canção calcada no órgão Hammond de Pedro Pelotas, onde Tim apresenta mais uma crônica pessoal do cotidiano. 'Quando estamos todos dormindo' tem o órgão Saema de Marcelo Jeneci e mostra uma das teorias malucas de Tim, onde ele especula sobre o que fazem as pessoas enquanto dormem. “Porém saibam que o sonho é o que é real de fato, e o que era concreto na verdade é abstrato”, diz ele na letra.

Em 'Eu confesso' Tim trás mais uma análise pessoal psicológica das pessoas em si, seguida por 'Brazil' com letra em inglês e uma versão lúdica e fantasiosa dos cenários tupiniquins – com direito a selva criada em estúdio pela banda e auxílio de Gabriel Basile. 'Pela metade' tem mais outra crônica característica de Tim, com sua letra conversada e cantada – como um papo de amig...

'Medo do medo' tem participação de Tom Zé e mostra o domínio da banda em criar uma atmosfera que encaixe no sentido das letras. 'Eu vou ter saudades' tem a mesma atmosfera soul e a mesma participação de Pelotas no órgão Hammond, bem como o lap steel de Luiz Chagas (guitarrista da 'Isca de Polícia'). 'Vanguarda?' ou 'Filhos da Vanguarda (ou não)' faz um belo relato sobre a situação do jovens artistas paulistanos, que cresceram sob as influências familiares, ou não, da 'Vanguarda Paulistana'.

Em 'Quando eu me aposentar' Tim sugere que a hora de descansar está diretamente relacionada com a sensação de ter completado algo na vida – mas que este sentido dá-se apenas no presente. 'Desaparecido' trás outra letra característica de Tim, com um história fabulosa de ficção-científica envolvendo clones, sequestro e crises existenciais – com participações de André Vac nas rabecas e Gabriel Milliet no sax e flautas.

Através do “desespero doentio de quem não sabe enfrentar o vazio”, 'O Terno' encerra o disco com delicadeza suficiente para deixar a sensação de que falta alguma coisa... Pois a verdade é que falta mesmo... Dê play novamente, que você descobrirá o que é...

2014 O Terno

1. Bote ao contrário
2. O cinza
3. Ai, ai, como eu me iludo
4. Quando estamos todos dormindo
5. Eu confesso
6. Brazil
7. Pela metade
8. Medo do medo
9. Eu vou ter saudades
10. Vanguarda?
11. Quando eu me aposentar
12. Desaparecido

domingo, 31 de agosto de 2014

VOCÊ É DAQUELES QUE AINDA PENSAM EM TER IDÉIA

Estrela Ruiz Leminski apresenta uma seleção de belas canções compostas pelo pai, o poeta curitibano Paulo Leminski.


Após o ótimo álbum lançado em parceria com Téo Ruiz, 'São Sons', sob a alcunha de 'Música de Ruiz', Estrela Ruiz Leminski selecionou um diversidade fantástica de canções da obra musical de Paulo Leminski, o poeta marginal de Curitiba, para o álbum 'Leminskanções'.

O disco duplo separa-se em dois momentos distintos da obra de Leminski – o disco um, 'Essa Noite Vai ter Sol', apresenta um punhado de composições próprias do poeta, enquanto o disco dois, 'Se nem for Terra, se Transformar', mostra diversas parcerias com grandes nomes da música brasileira, como Itamar Assumpção, Moraes Moreira, Zé Miguel Wisnik, Edvaldo Santana e até William Shakespeare.

Com produção musical de Fred Ferreira e Natalia Malo, o álbum trás participações especiais de gente como Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro, Zelia Duncan, Ná Ozzetti, Serena Assumpção e Bernardo Bravo. Os músicos que gravaram o disco com a cantora receberam o nome de 'Os Paulêra', enquanto ela se apresenta agora como Estrelinski.

O disco é uma mistura de diversos ritmos e segundo Estrelinski os arranjos foram feitos baseados no que o próprio pai ouvia em casa. Por isso é fácil encontrar o reggae com pegada moderna como em 'Filho de Santa Maria' e 'Sou legal eu sei'. Mas também há o rock pungente como em 'Razão', 'Essa voz está sendo ouvida em Marte' e 'Hard feelings', ou com groove balanceado brasileiro de 'Ogum', 'Não mexa comigo' e 'Promessas demais'.

Num álbum duplo, também há espaço para a estranheza dodecafônica, tanto apreciada por Leminski, de 'Desilusão', 'Transformar' e 'Diversonagens suspensas', composta em parceria com a cantora e co-produtora do disco Natalia Malo. Outra mistura inusitada culturas e ritmos dá-se no âmbito de canções como 'Sinais de haicais' e 'Luzes', que mescla ska com folk norte-americano.

'Verdura', 'Mudança de estação' e 'Dor elegante' já são conhecidas do atento ouvinte por outras vozes, mas receberam tratamento elegante e afetuoso da cantora Estrelinski e suas estrelas, 'Os Paulêras'. Caetano, o pessoal d'A Cor do Som' e Itamar não “sofreram nessa última hora” com a releitura de suas canções em parceria com Leminski.

As belas baladas são o xote 'Se houver céu', o rock 'A você amigo', a etérea 'Navio', o blues 'Live with me', o jazz 'Hoje tá tão bonito' e a pop 'Oxalá'. O disco duplo encerra com a bucólicidade de 'Nóis fumo', parceria entre Leminski e Alice Ruiz, pais da cantora Estrelinski.

Como o pai, Estrelinski é uma artista inquieta. Além de cantora e compositora é poetisa e estudiosa da cena musical independente brasileira – lançou o livro 'Contra Industria' sobre este cenário atual e outras diversas obras poéticas.

2014 Leminskanções

Disco 1
1. Desilusão
2. Ogum
3. Razão
4. Verdura
5. Não mexa comigo (ft. Arnaldo Antunes)
6. Filho de Santa Maria
7. Se houver céu (ft. Zeca Baleiro)
8. Luzes
9. A você amigo
10. Navio
11. Mudança de estação
12. Essa voz está sendo ouvida em Marte
13. Valeu
14. Adão

Disco 2
1. Diversonagens suspensas
2. Dor elegante
3. Sinais de haicais (ft. Zelia Duncan)
4. Transformar
5. Live with me (ft. Ná Ozzetti)
6. Hard feelings (ft. Serena Assumpção)
7. Hoje tá tão bonito
8. Oxalá
9. Sou legal eu sei (ft. Bernardo Bravo)
10. Promessas demais
11. Nóis fumo

domingo, 24 de agosto de 2014

NONADA É O JUDAS NO MEIO DA RUA ou DO AUTO-EXÍLIO AO RENASCIMENTO

A banda 'Judas' mistura a viola caipira com rock e pop, para criar um estilo único intitulado como “hard-roça”.



A banda brasiliense 'Judas' nasceu do processo de reinvenção do compositor Adalberto Rabelo Filho – paulistano típico com raízes em Pernambuco e Rio de Janeiro. São dele as composições da banda 'Numismata' e as parcerias com Thadeu Meneneghini para a banda 'Vespas Mandarinas'.

Quanto veio para Brasília, Adalberto passou por dificuldades pessoais, mas encontrou no mesmo cerrado do auto-exílio a ideia que faltava a sua redescoberta como artista. Foi com a viola caipira do cerrado característico da cidade, que ele ressurgiu com um punhado de belas canções. Com as composições prontas, Adalberto buscou um time de músicos para personificarem as canções e dar-lhes uma forma definitiva.

Com produção, guitarra e baixo de Kadu Abecassis, viola caipira e violão de Fábio Miranda, piano e teclados de Helio Miranda, bateria de Augusto Coaracy e algumas participações especiais, Lucas Muniz na sanfona e clarone, Janaina Pereira ('Bicho de pé') nos vocais e Fernando Rodrigues ('Pé de Cerrado') na percussão e no baixo em algumas músicas.

'Nonada' abre o álbum com a analogia do sentido da palavra – na obra de Guimarães Rosa têm o significado de “ninharia” ou “coisa de pouco valor” – com a forma que a cultura popular é tratada atualmente. Composta em parceria de Adalberto com Fábio Miranda, que também compôs 'Flor do Agave', uma ode à redenção pela flor do título, que brota uma única vez para morrer dando lugar a novos frutos.

'Adeus violeiro' traz a primeira participação da cantora Janaina Pereira. Seguida por 'Mormaço', que releva o sentimento de que o “sertão está em todo lugar”. Em 'Canção do exílio' Adalberto remete ao texto de Gonçalves Dias, 'Canções do Exílio', ao mesmo tempo em que fala pela primeira vez da sensação de estar auto-exilado na capital do país. Já na canção seguinte, Adalberto assume a posição de candango nato em 'Cobra criada', com participação de Dillo Daraujo e Pio Lobato nas guitarras.

'Caim' sugere uma suposta formação de uns 'Novos Goianos', através da influência de Raul Seixas e dos 'Novos Baianos'. 'Entradas e bandeiras' trás a participação de Cacai Nunes na viola de cocho, numa alusão ao êxodo e ao desbravamento. 'De Comala a Macondo' mistura o realismo fantástico do mexicano Juan Rulfo com o do colombiano Garcia Marques e com o brasileiro João Cabral de Mello Neto.

'Dobrado' é a delicadeza na forma de canção com a mistura do blues com o cancioneiro popular violeiro. 'Lugar público' tem a participação da rabeca de Siba Veloso e a voz de Janaina Pereira. De certa forma, uma homenagem a José Agripino de Paula.

O disco encerra com 'Pássaro azul', uma canção de duplo sentido, que traduz o sentimento de encerramento de um ciclo. Existe ainda uma faixa escondida, 'Muçurana', uma singela reflexão que representa o “Oroboro” – uma serpente (ou dragão) que morde a própria cauda – reforçando o próprio significado do álbum.

Por isso, o álbum 'Nonada', que saiu pela 'Tratore', é uma obra coesa, que retoma a tradição das canções populares e subverte as próprias composições, trazendo-as à atmosfera atual e contemporânea.

Seguem algumas linhas da conversa que tive com o mestre Adalberto...

Como foi que você teve a certeza do que seria músico e compositor?

Eu não tenho certeza ainda.
Na verdade, eu acho que a música é mais um meio de expressão da minha poesia. Eu sou mais letrista, gosto da disciplina que a música obriga as palavras a assumirem, mas todas as melodias e a maior parte das harmonias eu faço também pra dar sentido emocional ao que estou tentando transmitir.
Diria-se o singer songwriter (cantor compositor em português). Acho que o Leonard Cohen seria o exemplo óbvio de referência.

E quanto ao 'Numismata'? A banda acabou? O último disco foi de 2009...

O 'Numismata' não acabou, ele existe ainda, de certa forma. Nesse mês a gente lança os lados B que ficaram de fora do 'Chorume' (2009) na plataforma digital – o disco vai se chamar 'Jenkem' e sai no dia 27 de agosto.

E como surgiu a ideia do 'Judas'?

Cara, eu cheguei aqui em Brasília e tive alguns percalços e o 'Judas' é a personificação desse caminho de reinvenção de mim como artista.
É um personagem que eu usei pra transcender essas dificuldades e ao mesmo tempo buscar a identificação das pessoas. O exilado, o proscrito em sua busca de redenção, o pária alfa.

Você não acha que o nome 'Judas' carrega uma imposição negativa?

Eu acho. Mas a intenção é essa. De se colocar na posição de condenado, pras pessoas ao mesmo tempo escurraçarem e se identificarem, que nem na malhação do Judas. Iisso permite que role uma sinceridade no “condenado”, uma liberdade. Tipo assim, é muito massa almejar ser Jesus, é legal tentar seguir São Francisco, mas todo mundo é Judas.
O importante é que a galera entenda que a identificação é com as falhas, que o ser humano é falho como o Judas. É uma lógica reversa da galera se olhar no espelho invertido e ver que não se pode julgar ninguém.
Porque no final todo mundo está sujeito ao erro. Falar a verdade e dar a real com liberdade, por isso pus a gente nessa situação de erro. Porque liberta.

É incrível que esse sentimento seja extravasado usando a viola caipira, que é uma forma de arte mais antiga e até discriminada...

É por isso que é legal. Porque como terreno inexplorado é riquíssimo em possibilidades, da mesma maneira que se releu o maracatu, o samba ou o frevo. E faz essa ponte do cerrado, com São Paulo, minha terra natal. Porque a viola é essencialmente paulista e é o primeiro instrumento a aportar no Brasil, com os Jesuítas. E nada mais justo que uma banda chamada 'Judas' venha levar a viola prum terreno mais pop.
Fora que eu acho que isso é natural no pop, como o manguebeat. É a possibilidade cíclica do tempo e da eterna renovação das coisas, como diziam Leminski e Wally Salomão (sobre a poesia do futuro).
Se eu fosse definir melhor, diria que é uma retomada de fé no formato de canção popular. A retomada de fé numa banda chamada 'Judas' – é própria expiação pelos pecados.
Mas a gente foi atrás de certa sonoridade híbrida, claro. Misturando as referências de regionalismo com as referências do que é "pop". E as letras fazem a liga...

E o que você está esperando alcançar com esse trabalho?

Eu espero que a galera se interesse pela proposta “diferente” e ouça bastante e curta as letras bastante também...

2014 Nonada

1. Nonada
2. Adeus, violeiro
3. Mormaço
4. Canção do exílio
5. Cobra criada
6. For do Agave
7. Caim
8. Entradas e bandeiras
9. De Comala a Macondo
10. Dobrado
11. Lugar público
12. Pássaro azul
13. Muçurana

domingo, 17 de agosto de 2014

O AMOR MORA EM ROMA NUM RAMO DE AMORA

Banda paulistana de multi-instrumentistas cria universo lúdico através da música brasileira e outros ritmos.



Entre marchinhas, samba-canções, ragtime, choro e vários outros ritmos, misturados ou não. A banda 'Pitanga em Pé de Amora' apresenta a delicada mistura de afrobeat com baião, marchinha com a fanfarra do leste europeu, entre tantas outras uniões inusitadas.

O grupo é formado por Angelo Ursini na flauta, clarinete, sax e voz; Daniel Altman no violão 7 cordas, guitarra e voz; Diego Casas no violão e voz; Flora Popovic na voz e percussão e Gabriel Setubal na guitarra, trompete, violão e voz.

Com diversos convidados especiais eles apresentam um disco singelo e bem delineado. Com participações de gente como de Mônica Salmaso, Teco Cardoso (flauta e sax alto e barítono), Lulinha Alencar (sanfona e piano), Bruna Caram, Pedro Altério, Pedro Viáfora, Silas de Oliveira, da banda 'Batuntã', entre outros.

O álbum 'Pontes para Si' abre com a canção 'O pescador' com os sopros do 'Batuntã', seguida pela delicadeza de 'Tempo novo', que dá lugar ao samba torto em 'Insônia'. A voz de Mônica Salmaso imprime beleza na canção 'Ceará', que logo dá lugar a mistura incrível do baião com o afrobeat em 'Baião de Fela'.

'Alma de poeta' é um samba épico com força para ser entoado em uníssono nas arquibancadas dos sambódromos. Enquanto 'Sonhos lúcidos' apresenta nova interferência da banda 'Batuntã' e 'Razão de ser' denota clara beleza entre as vozes e instrumentos, com letra inspirada em poesia de Paulo Leminski.

'Descompasso', 'Levantar respirar', 'Feito morrer', 'Oração' e 'Alpinista' mostram a delicadeza dos arranjos simples que se transformam numa suite de rara beleza. 'Marchinha', que encerra o álbum, apresenta a mistura das marchas com o ragtime, com o frevo, com a fanfarra do leste europeu e com o funk carioca.

Um disco imperdível para os amantes da música brasileira – uma obra ímpar muito bem produzida por Swami Jr.

2014 Pontes para Si

1. O pescador
2. Tempo novo
3. Insônia
4. Ceará
5. Baião de Fela
6. Alma de poeta
7. Sonhos lúcidos
8. Razão de ser
9. Descompasso
10. Levantar respirar
11. Feito morrer
12. Oração
13. Alpinista
14. Marchinha