quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

A ESPIRAL DO SAMBA DO CRIOLO

O novo álbum do rapper Criolo tem o samba como peça principal de exposição da crônica cotidiana urbana e periférica.



Desde o segundo álbum de sua carreira, o rapper Criolo apresenta um samba diferente e especial que relata o cotidiano urbano das favelas que conhece.

No primeiro álbum “Ainda Há Tempo”, o rapper ainda via o rep com exclusividade e não tinha a produção especialíssima de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral – que produziram também a regravação do primeiro álbum, onde o rapper modifica trechos preconceituosos de suas antigas canções.

No segundo álbum, “Nó Na Orelha”, o rapper apresentou “Linha de frente”, que relata de forma irônica uma boca de fumo cheia de figurinhas inusitadas. No terceiro álbum, “Convoque Seu Buda”, o samba da vez foi “Fermento pra massa”, onde uma bela crônica urbana e social ao relatar o cotidiano de um morador do subúrbio que enfrenta uma greve de transporte com muito bom humor.

Pois era quase certo que o cantor apresentasse um álbum só de samba. Nada mais justo que o rep ser o salvador da verdadeira música brasileira. Nas mãos do rapper/ cantor/ compositor Criolo está é uma verdade cada vez mais próxima da realidade. Com letras pungentes que ferem ao ser proferidas, Criolo apresenta sua crônica social sobre temas atuais da situação brasileira.

“Lá vem você” abre o álbum de forma alegre e espontânea, como uma verdadeira roda de samba de subúrbio. Seria esta a versão “Garota de Ipanema” do Criolo? “Dilúvio de solidão” tem versos característicos do rapper como “nostalgia é guarda-chuva” e “para-raio é o pobre violão” ou “cachaça é água que acaba com o caboclo”.

“Menino mimado” foi o ponto de partida do álbum e tem destino certo. Uma crônica sobre a situação política em vias de golpe de estado que o país vivia. Não é preciso se esforçar muito para saber a quem se destina a letra da canção. “Língua ferina” foi incluída no álbum como bônus na versão deluxe. Um samba maravilhoso para ser cantado em uníssono na roda de samba.

“Nas águas” é um ponto de umbanda. Axé! Outra canção para ser entoada em uníssono com as baianas do baianá.  “A filha do Maneco” é um choro maravilhoso, composta em parceria de Criolo com Ricardo Rabelo e Jeferson Santiago.

A canção que dá título ao álbum, “Espiral de Ilusão”, é uma ode anti-machista, que fala sobre mágoas de amor. Com muita propriedade o cantor reflete que “mulheres amam, homens não sei o quê”. Onde ele encerra “por favor não me liga e não me procure mais tarde”.

“Calçada” é um lindo samba de roda e “Boca fofa” é um samba de gafieira. “Hora da decisão” é outra bela crônica do cotidiano da favela composta por Criolo em parceria com Ricardo Rabelo e Dito Silva. A canção reflete a situação vivida pelos moradores do subúrbio. “Penalidade não é loteria”, ressalta Criolo.

 “4 da manhã” é outro bônus que só faz parte da versão deluxe. Outra crônica de um morador periférico que segue na correria diária. “Cria da favela” leva o samba de volta ao alto astral e encerra o disco pra cima com um samba rasgado e divertido.

O disco tem produção de Ganjaman e Cabral e participações de Ricardo Rabelo no cavaquinho, Gian Correa no violão de 7 cordas, Ed no trombone, Fernando Bastos nos saxofones, Mauricio Badê e Guto Bocão e Alemão nas percussões e com as Clarianas (Martinha Soares, Malgana Lima e Maruna Costa) no coral feminino.

Destaque especial para a arte maravilhosa da capa do disco feita por Elifas Andreato – uma obra de arte.

2017 Espiral de Ilusão
                                  
1. Lá Vem Você
2. Dilúvio de Solidão
3. Menino Mimado
4. Língua Felina
5. Nas Águas
6. Filha do Maneco
7. Espiral de Ilusão
8. Calçada
9. Boca Fofa
10. Hora da Decisão
11. 4 da Manhã
12. Cria de Favela

Um comentário:

Biancabis disse...

o cara é muito versátil, né?