segunda-feira, 31 de março de 2014

SALVE A FÚRIA E A FORMOSURA DA AMÉRICA DO SUL

Fábio Trummer, do 'Eddie', se une a Diego Reis e Lucas Bori, do 'Vivendo do Ócio', para juntos criarem um dos melhores álbuns de rock brasileiro. 



Há tempos que Fábio Trummer tem a necessidade de dar vazão a sua veia mais roqueira – uma vez que o 'Eddie' sempre experimentou outros estilos, mesmo predominando a mistura de frevo com surf-music.

A ideia era se aproximar do universo punk-rock, que foi a partícula criadora de toda a carreira do próprio Trummer. Para isso, ele chamou dois novos colegas – e fãs do trabalho com o 'Eddie' – Dieguito Reis e Lucas Bori, bateirista e baixista do 'Vivendo do Ócio', respectivamente. Juntos criaram o 'Trummer Super Sub América' – nome inspirado em Eduardo Galeano, que categoriza a América do Sul como uma sub-américa.

O novo álbum, segue essa premissa com letras fortes e impactantes, com arranjos executados no formato de “power trio”. Em 'SAS', Trummer evoca uma ode à América do Sul, chancelando os heróis assassinados, as festas, geografias e até políticas etc. 'Medo da rua' parece oportuna neste momento de manifestações populares e repressões governamentais.

Quase como uma ópera punk-rock, o roteiro do álbum segue com 'Ardendo em chances', ressaltando as consequências relacionadas ao clamor do povo em descontentamento. 'Eu tenho fé' injeta um miligrama de esperança na situação atual – sentimento que não norteava a versão original de Rogerman, líder do 'Bonsucesso Samba Club', gravada em 2010 e 2012 (antes dos movimentos populares).

'Música Canibal' reflete uma autofagia da amada pátria, seguida à analogia entre o frevo e o blues, 'De Olinda ao Mississipi'. Em 'Descompasso' Trummer apresenta um riff poderoso ao serviço da letra pungente sobre a distorção da realidade. 'The end' ameaça a vida com pessimismo de proporções apocalípticas.

'Sindicato natural' critica as formas de associações enquanto 'Só faltou' encerra o petardo de forma otimista. Um dos melhores discos de rock do ano. Pode baixar sem erro. Vida longa ao 'Trummer SSA'.

2014 Trummer Super Sub América

1. SAS (Salve a América do Sul)
2. Medo da rua
3. Ardendo em chances
4. Eu tenho fé
5. Música Canibal
6. De Olinda ao Mississipi (Movimentação)
7. Descompasso
8. The end (o fim)
9. Sindicato natural
10. Só faltou

domingo, 23 de março de 2014

SEQUELADOS EM ALDEBARAN

Entre ossadas e fragmentos, Bonifrate apresenta um universo de “substâncias cósmicas”, “sapos alquímicos”, “anões da vila do magma” em “breve viagens ao país das libélulas”.


O cantor e compositor Bonifrate, também integrante dos 'Supercordas', apresenta um novo álbum com recriações de canções já gravadas por outros artistas, como Digital Ameríndio, banda 'Filme', 'Os Telepatas' e 'Acessórios Essenciais'.

O EP 'Toca do Cosmos' inicia com 'Sequelagem', anteriormente gravada pelo próprio Bonifrate no disco de 2002, 'Sapos Alquímicos na Era Espacial'. A canção é uma balada psicodélica e psicótica, no melhor estilo dos “seres verdes” cheios de musgo, que existem na cabeça de Pedro, o bardo – com participação de Alexandr Zhemchuzhnikov no sax tenor.

Na sequência, a inédita dos 'Acessórios Essenciais', 'Rock da paçoca', cantada em parceria com Thalita Aguiar – que também clicou a foto da capa do EP (e da postagem também). Um lendário rock rural de proporções épicas e final apoteótico.

Segundo o próprio Bonifrate, 'Aldebaran', já fazia parte do repertório ao vivo. A canção, já gravada pela banda 'Filme' de Simplício Neto, tem todos requisitos básicos para integrar o repertório psicodélico rural do cantor. Com inúmeras referências, desde religiosas e cósmicas, do sertão ao espaço, de 'Paebirú' à estrela que nomeou a música.

'The last time' foi gravada anteriormente por Digital Ameríndio, parceiro de Bonifrate no 'Supercordas', junto também com Diogo Valentino, que masterizou este EP. Uma canção popular com predisposição a virar um hino de estádio cheio, para ser entoada em uníssono por toda multidão. O disco todo tem participação de Marcus Thanus nas guitarras.

O EP encerra com 'Dissipado Amor', d'Os Telepatas', numa bela recriação de Bonifrate, que transforma a canção num réquiem ao fim do amor. Como todo lançamento de Bonifrate... Este álbum é uma peça fundamental à sua coleção. Impoerdível!

2014 Toca do Cosmos EP

1. Sequelagem
2. Rock da paçoca
3. Aldebaran
4. The last time
5. Dissipado amor

domingo, 16 de março de 2014

LEVE E LEVANTE, LEO CAVALCANTI

Com novo álbum, Leo Cavalcanti apresenta um interessante levantamento de belas canções com apelo polular.


'Despertador' de Leo Cavalcanti pode ser considerado como um dos melhores lançamentos do ano. O álbum inicia com a faixa título, entregando o tema do redescobrimento ou do verdadeiro despertar.

Um disco que pode bem definir-se através da canção título, que permeia todo o conceito do álbum, 'Despertador'. Gravado num sítio com Leo no violão e voz, Guilherme Held na guitarra, Samuel Fraga na bateria, Marcos Leite Till no baixo e Fabio Pimczowski nos sintetizadores e teclados. Produzido por Cavalcanti e Pimczowski, com uma co-produção de Held.

O disco tem uma levada densa e pegajosa. Um álbum para se apreciar inúmeras vezes sem cansar o ouvinte.

2014 Despertador

1. Despertador
2. Só digo sim
3. Sonho parasita
4. Leve
5. Inversão do mal
6. O momento
7. Get a heart
8. Tudo tem seu lugar
9. Sua decisão (ser feliz e contente)
10. Amoral

domingo, 9 de março de 2014

THEY CALL ME AURORA

Projeto Aurora une dupla de artistas na criação de um universo de canções baseadas no som dos anos 60.


A cantora Bárbara Eugênia se juntou com o guitarrista do 'Hurtmold', Fernando Cappi, que assina os trabalhos solos como Chankas, para produzirem um álbum com canções cantadas em inglês e de sonoridade folk.

A ideia partiu da cantora, logo após lançar seu mais recente disco solo, 'É o que Temos'. Com inspiração nos 'Beatles', ela começou a escrever canções que falavam das relações entre as pessoas, enquanto membros de uma banda, e ponderou sobre as mudanças como indivíduos, que ocorrem com o tempo.

Para dar vida às músicas, ela convidou o Chankas, que já havia arranjado uma das faixas de seu último álbum, de 2013, 'Não tenho medo da chuva e não fico só'. Juntos os dois criaram um compêndio de belas canções.

O álbum 'Aurora' pode ser encontrado gratuitamente na internet e apresenta um emaranhado de referências ao pop-rock e folk dos anos 60. Com letras em inglês, o projeto pode trazer certo desconforto ao ouvinte, mas tudo compensado pelas belas melodias influenciadas por artistas do mesmo período, como Dylan, Barrett, Young e os já citados acima, “os besouros do ritmo”.

Um disco cheio de baladas como 'Say goodbye', 'With love', 'Don`t let it slip away', 'Why so mute?' e 'And love you`ll have', mas também com espaço para a canção pop brasileiro/indiana 'Climb the stairs', e também para o rock psicodélico em 'Ants' e experimental em 'Stand up for yourself'. A faixa título, 'Aurora', encerra o álbum com um clímax apoteótico, legítimo de um hino indie-folk-rock.

Independente da cantora manter um “tumblr” com o nome 'Me llamo Aurora', o título do álbum veio mesmo por causa do termo universal que 'Aurora' representa. Com participações de outros artistas como Regis Damasceno, Thomas Rohrer, Richard Ribeiro, Davi Bernardo, Guizado e Gil Duarte.

A dupla pretende apresentar um projeto de crowdfunding para viabilizar a prensagem de um vinil, antes de iniciar a turnê do álbum - esta campanha de financiamento já está no site catarse. Colaborem!


2014 Aurora

1. Say goodbye
2. With love
3. Don't let it slip away
4. Why so mute?
5. Stand up for yourself
6. Climb the stairs
7. And love you'll have
8. Ants
9. Aurora

domingo, 2 de março de 2014

OKOLOFÉ ÍYÁ JUÇARA MARÇAL ODOYÁ ou QUERO MORRER NA AMÉRICA DO SUL

Cantora paulistana apresenta a voz como instrumento no primeiro disco solo após quase vinte anos de carreira.


A cantora Juçara Marçal começou a carreira com o grupo vocal 'Vésper', com o qual gravou quatro álbuns. Depois integrou 'A Barca', onde gravou mais dois discos, para seguir em parceria com Kiko Dinucci, 'Padê', até formar o trio 'Metá Metá', com a adição do saxofone de Thiago França.

Quase vinte anos depois, Juçara lança o primeiro disco solo, 'Encarnado', que reflete sobre a morte em diversas formas de experiências. Com arranjos enxutos pela rabeca de Thomas Rohrer, o saxofone e o piano de bolso do Thiago França, a guitarra de Kiko Dinucci e Rodrigo Campos, que também toca cavaquinho, e a voz incrível de uma das maiores cantoras da atualidade funcionando como mais um instrumento.

Tudo começa com 'Velho amarelo', canção de Rodrigo Campos, que evoca a morte inevitável com os versos de “quero morrer na América do Sul”. Em 'Damião' de Douglas Germano e Everaldo Silva, Juçara apresenta a sugestão do velho ditado de quem bateu também leva, seguida pela romântica parceria entre Romulo Fróes e Alice Coutinho, 'Queimando a língua' e depois 'Pena mais que perfeita', composta por Gui Amabis e Regis Damasceno. 'Odoyá' é uma saudação à mãe Yemanjá de autoria da própria cantora.

'Ciranda do aborto', composta por Kiko Dinucci, é uma desconcertante e violenta canção sobre o tema do título. Nenhum ouvinte é capaz de passar incólume após escutar os fortes versos da canção, unidos ao arranjo tenso e pungente, que culminam num explícito catarse caótico. 'Canção para ninar Oxum', de autoria de Douglas Germano, propõe uma melodia singela, que contrapõe com a dureza da faixa anterior.

A seguir, Juçara apresenta clássicos de dois grandes nomes da música brasileira, Itamar Assumpção e Tom Zé, em 'E o Quico?' e 'Não tenha ódio no verão', respectivamente. Em 'A velha da capa preta', de Siba Veloso, ela apresenta uma representação popular da morte como ceifador sinistro. 'Presente de casamento' é uma parceria entre Thiago França e Romulo Fróes.

O final dá-se com o duelo da voz de Juçara com o cavaquinho de Rodrigo Campos na canção de Kiko Dinucci, 'João Carranca'. 'Encarnado' é um disco forte e opressor, que vai te levar mais fundo e além da experiência pós-vida. O álbum é um renascimento sustentado pela voz suave e encorpada de Juçara.

2014 Encarnado

1. Velho amarelo
2. Damião
3. Queimando a língua
4. Pena mais que perfeita
5. Odoyá
6. Ciranda do aborto
7. Canção para ninar Oxum
8. E o Quico?
9. Não tenha ódio no verão
10. A velha da capa preta
11. Presente de casamento
12. João Carranca